sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Ele

Ele é cheio de manias irritantes, como uma criança que não sabe a hora de parar. Dono de um andar desmazelado, cabelo minuciosamente arrumado e um sorriso que desarma qualquer mecanismo de defesa meu. O olhar dele é o começo de todo sonho bom. Me transporta, me viaja, me eleva, me leva. Pra longe. Pra perto... Dele. 

O beijo é sutil, uma linha tênue entre amor e arte. Entre pressa e calma. Entre desejo e renúncia. Entre certeza e dúvida. Entre tanta coisa que me desperta urgência em tê-lo, ao mesmo tempo em que me desperta uma vontade de dizer que é melhor parar por aqui, já que eu tenho mesmo o hábito de afastar tudo o que me faz bem. Por medo da perfeição me invadir com cores alegres e desfazer todas as minhas crenças sobre a inexistência da maestria da felicidade a dois. Ou por burrice, porque quando as coisas vão indo bem, muito bem, a incerteza da reciprocidade abriga todas as minhas paranoias. 

O abraço dele conforta todas as minhas angústias. Seus braços se enlaçam com todo e qualquer afago meu. O toque dele me arrepia em lugares no corpo que eu nem sabia que era capaz de sentir. Ele tem tamanho o suficiente pra trocar lâmpada sem escada, ficar com os pés pra fora cama, o suficiente também pra me causar torcicolo entre uma troca de olhares ou um beijo mais longo, mas por dentro, tem tamanho de menino pequeno que sente medo de filmes de terror. 

O timbre da voz é grave. À flor dos lábios. Como se ele falasse em uníssono, e todos os outros sons ficassem mudos.  Sua paciência vai além da minha capacidade de entender tanta calmaria. Nem que eu meditasse três vezes por dia, alcançaria tal graça. O ritmo dele é oposto ao meu, acertando nosso compasso num ritmo não muito acelerado. Estamos de mãos dadas com o tempo.

Exagerado. Escandaloso. Falante. Dramático. Dono de bordões que provavelmente a mãe dele desconhece. Bufa em alto falante quando brinda um copo comigo, e eu largo a cerveja na mesa, em vez de tomar. Demonstra afetos, fala sobre seus planos, divide seus sonhos, sente assiduamente na medida do impossível. Seus sentimentos densos são escrachados pra quem quiser ver... e sentir. Não é sobre ser intenso, é sobre ser consistente. 

Ele me invadiu, sem cuidado algum. Assustada que só, recuei. Ele insistiu. Pisando descalça, na pontinha dos dedos, eu entrei na vida dele. Pedi licença e reparei, não há bagunça. Suas cicatrizes estão curadas. Do passado, ele não se lembra mais. O coração dele tá novinho em folha. Que sorte a minha.

Ele é cheio de manias viciantes, como um homem que sabe a hora certa de começar uma história. 


Ana da Mata

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Eu me perdi em você

Por dentro do teu olhar era tão fácil se perder.

E eu me perdi.

Eu me perdi quando transformei a curva do teu pescoço num abrigo. Num cantinho só meu. Como se eu pudesse decretar que você era o meu lugar favorito no mundo. Tinha um cheiro só seu, que tornou o meu. Era digno de ser visitado várias e várias vezes.

Eu me perdi quando entrei no teu coração. É um labirinto e eu não achei a saída. Talvez seu coração só cumpre com a função bombear sangue, sem precisar de muita cerimônia ou poesia. Oposto ao meu. Eu me perdi quando você me pedia calma e eu dava a alma. O amor realmente é muito frágil.

Eu me perdi na singularidade de toda a gentileza que me foi doada. Eu achava que era sorte. Mas era só você, sendo você. Sempre munido de boas intenções, palavras doces e um cavalheirismo que me fazia acreditar que você era um homem do século passado.

Eu me perdi nas carícias despudoradas, quando você passeou em mim, e me fez arrepiar em lugares que eu nem sabia que era capaz de sentir sensações que afloravam a pele. Cada toque seu era um convite pra desejos insaciáveis.

Eu me perdi no teu silêncio, que me grita todo dia. Vem carregado de "serás". Será que ele tá bem? Será que está com outra pessoa? Será que ele pensa em mim? Será que ele se importa? Será? Será?! A tua ausência me visita todo dia. E isso tudo, as dúvidas, o silêncio, a ausência, a junção de todas as coisas que me fazem lembrar você, não vão me fazer te procurar. Você nunca me pediu pra ficar.

Eu me perdi nas nossas entrelinhas, que deviam ter sido descobertas. Me precipitei com impulsos mesquinhos, não te dei sossego, quase te explodi. Só queria saber em qual demonstração de afeto meu, você iria perceber que eu era sua.

Eu me perdi nos seus passos desajeitados e na sua dança diferente. No seu sorriso despretensioso e na sua voz grave. No seu mistério e nos seus problemas. Na falta de compromisso, revertido em tesão. Na saudade disfarçada de carência. Perdi o tempo, tive pressa. Quis ser alquimista, te levar pra outra constelação.

Eu me perdi em você, porque você nunca foi meu. Se fosse, teria encontrado em você, o nós. E não há nada que reverta essa situação. Nem bússola, nem mapa, nem bola de cristal ou promessa pra São Longuinho.

E tá tudo bem. Tudo bem mesmo.

Me perder em você foi a minha melhor confusão. E o meu melhor encontro também.




Ana da Mata

sábado, 12 de agosto de 2017

Obrigada pai, por me amar quando eu menos mereci e quando mais precisei

Pai,

Eu não me lembro, mas a mãe me disse que quando pequena eu chorava cada vez que o você saía para trabalhar. Dormia no meio da cama, invadia o banheiro e tomava banho junto com você. Na infância pai não é pai, é super herói. É anjo da guarda, é protetor. Lembro de dizer que você era o homem da minha vida. E também lembro de você me dizer que eu só poderia namorar depois dos 25 anos, ou só quando eu achasse um príncipe, porque era o que eu merecia e não menos que isso. 

Bem, as coisas foram mudando conforme fui crescendo. Eu já não chorava quando te via partindo, porque eu estava ocupada demais brincando com as minhas bonecas e jogos maneiros que ganhava. Eu já não te via como o homem da minha vida, porque tinha meninos interessantes na escola e que me fazia suspirar feito boba. Também já não achava mais poético acreditar que você era meu herói, porque isso é coisa de filmes hollywoodianos. 

Por uma fase meio estranha, que eu nem me aguentava, por não saber de fato qual personalidade eu tinha, você me ajudava. Me aconselhava em cada dúvida que eu tinha. E mesmo com o seu super conselho de namorar depois dos 25, eu me entreguei para alguns sapos adoráveis disfarçados de príncipes. E na decepção, lá vinha você de novo, me vendo soluçar por quem não merecia minhas lágrimas e não vinha carregado de razão dizendo "eu te avisei", só de uma maneira leve dizia "você tem que gostar de quem gosta de você". 

Com o tempo a gente aprende a valorizar quem sempre e deixa de lado quem nunca. Família é sempre. Então, pai, me desculpe por todas as vezes que eu me distanciei, me auto convencendo de que mesmo te achando o melhor pai do mundo, os caras da escola mereciam mais a minha atenção. Me desculpe por todas as vezes que respondi suas broncas, questionando sua capacidade de entender algo sobre relacionamentos ou sobre a vida. Mal eu sabia que o mundo não é cor de rosa e tampouco fácil. Me desculpe por todas as vezes que eu saí de casa enfurecida por achar que, de fato, só existe a minha verdade, o meu umbigo. E me desculpe por cada afastamento meu, por mudar as prioridades da minha vida, colocando meus amigos num pedestal e colocando minha família em lembretes no calendário em datas comemorativas. 

Amadurecer não é fácil. E você já sabendo de tudo e das façanhas da vida, brigava tanto comigo, tentando me mostrar de um modo regrado que nem tudo são flores, e para assim talvez, me poupar de algumas enrascadas e até de alguns choros. Portanto, mesmo crescida, os sentimentos que aprendi quando criança são eternos. Hoje eu choro só de imaginar sua partida, encho a boca para falar que você é o homem da minha vida e que sim, existe heróis na vida real e eu tenho o meu. Só posso te agradecer pela educação simples que me deu e pelos conselhos ricos, quem eu sou hoje é só um reflexo seu.

Obrigada pai, por me amar quando eu menos mereci e quando mais precisei. 



Ana da Mata

terça-feira, 27 de junho de 2017

A vida é feita de fases. E todas passam.

Tudo começa com empurrõezinhos. Tem sempre alguém tomando decisões por você. E não poderia ser diferente, você ainda está aprendendo a engatinhar. Tudo é muito fácil. Se chorar ganha colo, se não chorar, ganha também. Você começa a descobrir o mundo. Procura coisas, gosta de umas, rejeita outras. Tem uma rotina resumida em programas infantis na TV, bochechas sendo apertadas por todos que o rodeiam. Brinca, aprende, erra, acerta, chora, faz birra. Fase concluída com sucesso.

Você já está grandinho o suficiente para dizer o que gosta e o que não gosta. Observa o mundo ao seu redor, descobre novos nomes, lugares e pessoas. Questiona quase tudo, ou tudo o que vê e não entende. E se entende, pergunta também. Observando, atentamente, tudo ao seu redor percebe que tem falso gamer tentando te levar pra trás. Finge ser seu amigo e puxa seu tapete. Anda contigo, fala mal de você. Sente inveja de suas conquistas. Tem sua primeira decepção. Aprende a filtrar mais teus amigos. Fase concluída com choro e sucesso.

Seu lado infantil já não está mais em você, agora teus objetivos são outros. De preferência outros com olhos claros e cabelos escuros. Se entrega para alguns adoráveis sapos. Até que surge na tua vida um sapo com ombro largos, cabelos dourados e olhos castanhos, com habilidades e efeitos positivos, aparentemente. É diferenciado. Mostra a magia, te transforma em princesa. Te preenche com seis espaços em seu medidor de saúde. O jogo tá fluindo. Opa, ele foi embora. Efeito magia zero. Diminuiu quatro espaços da sua saúde. Você sofre, quer fechar o jogo. Ei calma, tem sapo que fica. É mais difícil de ser encontrado, mas tem o poder de te mudar de direção, de te deixar gigante, com superpoderes e efeitos intermináveis. Recebeu moedas, se deu bem, seu medidor de saúde está preenchido com todos os corações, está mais forte. Próxima fase.

Já teve decepções de tirar o sono, corroer a alma, dilacerar o coração. Em contrapartida, colecionou bons amigos, conquistou sonhos, atingiu objetivos. Nem tudo está perdido. Saiu da escola. Tem um emprego. Ajuda os pais. Quer sair de casa. Quer tomar decisões sozinha. Quer seu próprio tempo. Privacidade. Liberdade. Quer um carro. Quer se formar em duas faculdades. Quer ganhar mais. Quer mudar de emprego. Quer dormir mais cedo e levantar mais tarde. Quer ser dona de si mesmo. Quer o mundo. Quer a vida. Quer correr o mais rápido que pode, invadir o castelo, beijar um príncipe, ter um final feliz.

Você já está meio cansada de tanta rotina, quer o novo. De novo. Quer fazer escolhas certas, sem precisar ler o horóscopo todo dia. Volta a ser criança, quer saber de tudo. De onde veio, por que veio, para onde vai, por que as pessoas são como são e por que as coisas não podem ser mais fáceis e menos complicadas. Briga com o Universo, não entende nada, ninguém tem as respostas para as suas perguntas. Crise existencial. Para piorar, tem crise econômica, teu emprego tá em risco. Teu parceiro foi embora. Mais um. O que há de errado? Quer apertar stop, mas o tempo não pára. Procura terapias, faz meditação, treina três vezes na semana, entrou no Yoga. Está mais calma. Começa a entender que não existe verdade absoluta, que tudo tem um fim. Enxerga seus problemas com outros olhos, vê o mundo com outra percepção. Alcança a maturidade, absorve empatia, engole dores alheias sem engasgar. Fase concluída.

Você tem um parceiro, ele te ajuda a pular pontes difíceis. Te dá moedinhas de ouro, você ganha duas vidas. O jogo tá fluindo. E está tão bom, que você nem quer que tenha um final; Esquece a parte de vencer o Super Dragão, alcançar o topo castelo. Esquece. Tem um emprego bacana, faz viagens que te trazem lembranças bonitas. Percebe que a
gente falha miseravelmente em cada tentativa de adivinhar a próxima fase. E lá vem o destino com um menu secreto, dando opções bonitas de futuros. A gente escolhe o mais fácil. Cadê o código secreto estampado na nossa cara, nessas horas? Não tem nem capa de invisibilidade que nos faça sumir, até tudo ficar como queremos. Se não controla sua vida, a vida controla você.

O que existe de mais valioso no mundo, é o tempo. Use.
O infinito é o nosso mantra mais bonito. Enfeite.
Somos responsáveis por tudo que ecoa na eternidade. Preencha.
O que existe de mais valioso em nossas vidas está guardado em nós. No coração.

O segredo é nunca parar. Continue. Arrisque. Acredite. Se é seu, passará no teu caminho. Paciência. Nem tudo o que você quer, é o que precisa. Vá, sem medo. Mude, sem olhar para trás. Se a vida é um jogo, o controle é você. Não dê stop, não volte fases, vença obstáculos. No fim do jogo, terá valido a pena. E o esforço.

Momentos ruins, tornam-se aprendizados. Momentos bons, tornam-se lembranças. A vida é feita de fases. E todas passam. Aproveite-as!






Ana da Mata


terça-feira, 18 de abril de 2017

Todo carnaval tem seu fim

Eu fui tua desde o primeiro olhar. Desde o momento em que passei por você, no meio da multidão, enquanto nossos corpos fervilhavam um pelo outro. Desde quando pegou em minhas mãos, me olhando com total devoção, implorando em sussurros que eu ficasse. Que eu continuasse ali, porque eu seria sua. Toda sua. Você me beija, lentamente, como se o tempo não passasse. E, de fato, não passou. Eu não senti. Teu beijo me convenceu. Eu fiquei. Fui tua. Você é tão perfeito, ao mesmo tempo, que é cheio de defeitos. E eu voltei pra casa amando cada parte sua. Amei tanto, tanto... como se a definição de perfeição pudesse ser substituída com esse seu nome estranho.

A maneira como você me olhava, me obrigava a inventar cada vez mais sobre você. Ver mais, sentir mais, falar mais. Você não me deixou apodrecer no canto do quarto com as todas minhas esquisitices, respeitou meus limites, me ensinou a querer mais. Sorrindo de canto, desarmou cada empecilho que eu pudesse usar contra você. Tarde demais. Você vicia. O modo como me pegou de costas, suavemente, me prendendo em você. Vicia. A forma como se aproximou, tentando minuciosamente não me assustar com um turbilhão de sentimentos aflorados. Vicia. O jeito leve que tocou meu corpo, afetuosamente, como se já fôssemos amantes um do outro. Vicia. A serenidade ao me beijar, me forçando a crer que o amor existe em pleno Carnaval. Vicia.

Eu romantizei cada toque teu.

Enquanto eu te observava, me perguntava que raios que eu estava fazendo numa cama que eu nunca mais deitaria. Que merda que eu estava fazendo, sonhando acordada em ser inteira de um cara que eu nunca mais veria. Eu precisei disfarçar a menina apaixonada que eu era, e tentei ser uma mulher madura, ao extremo. Talvez tenha sido confuso pra você, imagino. É que você tem todo o potencial de acabar com minha vida... e com o meu coração.

Poderia ser menos embaraçoso se você não tivesse transformado uma noite de Carnaval, numa lembrança bonita. Se não tivesse um Golden que cheira shampoo importado e que deita no chão pedindo carinho. Se não tivesse reunido cada miudeza minha, juntado as quinquilharias e feito da nossa noite suja num poema sobre saudade. Se não tivesse poluído minhas percepções sobre o amor, com carícias despudoradas. Se não tivesse fingido tão bem em saber mais sobre mim, ouvindo atentamente cada palavra sobre a minha vida com um ar dramático. Se não tivesse uma inteligência além do normal, e não só braços fortes com tatuagem a mostra. Se não tivesse cantado no pé do meu ouvido "We found love in a hopeless place", e em seguida, me beijado com esses seus lábios macios, quase uma ofensa pro resto do mundo. 

Por fim, todo carnaval tem seu fim. Você foi só mais um cara. Mas, diferente de todos os outros caras, você não enjoa. A sua falam mansa, não enjoa. Sua risada prazerosa, não enjoa. Seu cabelo emaranhado em tons castanhos, não enjoa. Até o cheiro do seu cigarro que impregnou o quarto, não enjoa. Você é uma junção de todas as coisas boas que pode existir num homem, e exatamente por isso, não pode ser meu. Talvez eu veja coisas bonitas demais em quem não vê quase nada em mim. Enfim.

Você foi só mais um cara e tudo o que eu quis... naquela noite de Carnaval.



Ana da Mata