quinta-feira, 20 de março de 2014

A vida e suas ironias

Ele sempre conseguiu me controlar, mesmo sem perceber que tinha o poder de fazer isso. Ele sempre tinha uma desculpa esfarrapada pra cada mancada que dava comigo. E eu? Ah, eu aceitava cada desculpa. Meu cérebro adoeceu, com algo tão forte, que nenhum antivírus é capaz de remover, adoeceu de amor cego. Todo amor cego é doente. 

Nunca hesitei, nunca havia pensado na possibilidade de terminar um relacionamento. Porque imaginava que relacionamentos da vida real, eram iguais a todos os contos de fadas da Disney. Puta que pariu, eu me iludi sozinha. Nem posso colocar a culpa de todos os meus sonhos adolescentes, nele. Não posso. 

Também não posso culpa-lo por toda a mágoa e tristeza que me causou. Fui eu quem deixei. Lembra? Eu nunca ousei reclamar ou questionar, era só você chegar com um presente novo e com um café na cama, que eu já me derretia. Um derretimento apaixonado passageiro, não demorava muito pra toda aquela angústia de estar sendo enganada voltar. E por mais que eu soubesse a verdade, dentro de mim, eu não queria aceitar. 

Pois bem, eis que em uma manhã, eu acordo com um enjoo, uma ânsia. Eu queria ir atrás de um médico, pensei que era uma virose. Até eu perceber que foi a primeira vez em que eu acordei e não pensei nele. Foi a primeira vez que eu acordei e pensei em mim. Ao contrário do que pensei, eu não estava adoecendo, eu estava curando meu coração. Aquela sensação de enjoo, de aperto no coração, era simplesmente, a lei do desapego fazendo efeito.

Quanta ironia! Hoje, estamos numa situação invertida. Eu que quis sempre ser dele, me deparo, não querendo ser de ninguém. Querendo apenas sorrisos leves, abraços apertados e pessoas sinceras ao meu redor. E ele, que sempre me teve nas mãos, me quer como nunca quis antes. E me quer pra valer, pra constituir uma família, pra me chamar de sua. Se é tarde demais, eu não sei. Só sei que te dei mais chances do que eu deveria ter dado.


Ana Santos