quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Pelo direito de ter um amigo homem

Eu o conheci de maneira imprevisível. Um cara tão comum, tão igual a todos os outros, exceto pela sua forma de se expressar. Um poeta raro. Um homem com um jeitinho menino. Tão maduro e tão bobo. Em uma conversa, uma longa conversa, ele já sabia quase tudo sobre a minha vida e eu a dele. 

Ele é um amigo desses que pode me ligar a qualquer hora, que eu vou correr descalça (se for preciso) para encontrá-lo e dizer que vai passar. Ser amigo de alguém é muito mais que pagar a conta da balada, é muito mais que emprestar uma camisa, é muito mais que uma cerveja no barzinho da esquina, é muito mais que "oi, saudade, vamos marcar de sair". É muito mais que um numeral na sua rede social. Amigo que é amigo faz coisas que a gente mesmo, não acredita. Amizade é sinceridade, é lealdade. É cumplicidade e companheirismo. É respeito, é risadas e é choro também. É xingar, elogiar e é não deixar sair de casa com aquela roupa cafona. É abraço, é carinho, é beijo. É um olhar infinito de ternura em meio à uma gratidão por ele existir. 

A gente se apaixona por amigos também.  

Amigo homem não tem frescura, não tem inveja e não tem ciúmes. Fala sobre sexo sem cara de fazer de nojo, sem nenhum constrangimento. Não tem tpm e topa qualquer parada. Dão os melhores conselhos porque fazem parte do universo masculino e enxergam coisas que nós, mulheres, nos recusamos a ver... ou aceitar. Não tem inveja do seu sapato novo e não fala mal do vestido que você comprou na promoção. Amizade com homem é assim mesmo, não existe dicas de maquiagem, nem futebol aos sábados, não há cobrança... o que existe é confiança.

Em saber que pessoas não aceitam tal amizade, não acreditam em amizade entre homem e mulher. Talvez essas pessoas não deram a sorte de conhecer alguém como ele. Acham que somos namorados, especulam algum tipo de relacionamento "eles vivem juntos, acha que não rola nada?" Rola sim. Muito sentimento grande que pessoas de mente pequena não fazem ideia do que seja.

Ele me mostrou que amigos não precisam se conhecer há anos, pra serem grandes amigos. O tempo só ensina pra quem realmente enxerga o óbvio. Tenho vontade de dizer "ei, olha aqui, nem ouse em sair da minha vida, seu cretino". Talvez pessoas encantadoras vêm e vão só pra mostrar que nem tudo é o que parece ser, nem tudo está perdido e nem todas as pessoas são iguais. Eu não quero que ele vá embora, porque eu cansei de amizades instantâneas. Cansei de quem vem, me enche de alegria e vai embora como se não soubesse que a saudade existe e tem um gosto amargo. Eu não sei me despedir, eu não sei aceitar que tudo tem um fim. Porque amizade que é amizade não acaba. Nem mesmo por uma terceira pessoa. Nem mesmo pelo tempo. 



Psiu, dentre todos os ventos que a vida já me trouxe, você é a brisa mais leve. Nessa linha tênue entre destino e coincidência, cá estou, rezando que essa nossa sintonia não seja um acaso. Nossa amizade está na sincronia perfeita do tempo, para sempre e enquanto durar.


Ana da Mata

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Camarada Azarado

Era um camarada azarado, mesmo possuindo todos os adjetivos que existem num dicionário. Seu cabelo castanho era seu charme, seus olhos verdes eram como um convite para a  perdição. Encantador, lindo e azarado. É viciado em sexo. Paga para mulheres passarem a noite com ele, porque gosta de um bom sexo matinal.  Tem um jeito generoso, divertido, carismático e cafajeste. Ele pode ter qualquer uma em sua cama e na hora em que bem entender. Ele se afasta do amor, não acredita que um homem pode ser feliz com uma mulher só. 

 Mas o destino passou em sua vida e lhe deu uma grande mulher. Ah, uma morena digna de ser capa de revista. Se conheceram em uma palestra, já que ambos possuem cargos importantes na sociedade. Ela se apaixonou por aqueles olhos e mais: por ele. Se apaixonou como quem se apaixona quando se tem 12 anos. Passaram três meses juntos. Em uma manhã de domingo, ao acordar, ele se deu conta que dormiram de conchinha. “A vida é muito curta para trocar sexo+diversão por sofá+pizza”, pensou ele. Ficou tonto, levantou-se e foi embora. Não deixou bilhete, não deixou rastros, não deixou flores. Não deixou nada além de uma cama com uma mulher e sua ausência imperdoável. 

Ela é muito forte, inteligente e decide não procurá-lo. Ela sabe que mulheres fortes choram, sofrem, mas não se humilham. Ela sabe que amor tem que ser recíproco e não mendigado.

Dias depois, ela recebe flores e uma carta que dizia: “Ei mulher, sinto sua falta. Sinto falta do seu cheiro, da pinta que você tem na nuca, da sua risada estranha, do seu seu gato preguiçoso. Sinto falta da sua companhia, sinto falta de nós. Eu me apaixonei por você e percebi nesses dias terrivelmente tediosos. Fui covarde, eu sei. Mas o amor é isso, não é? Dizem que nunca é tarde para amar. Prometo que se me der mais uma chance, serei seu. Serei seu até o dia em que você quiser deixar de ser minha. Sinto sua falta!”
O coração dela apertou em cada palavra escrita. Ela chora, soluça, sorri, se empolga, chora de novo e decide escrever um e-mail.

“Querido  camarada azarado, eu também senti a sua falta. Senti falta da sua cueca boxer preta do Batman, senti falta da sua perna entrelaçada na minha. Mandar flores com um bilhete, não ameniza, não dói menos e não me faz te querer de novo. Você está errado, amor não é isso. O amor não é para covardes. Você tinha tudo para ser meu, tínhamos tudo para sermos um casal feliz. Tínhamos. Você poderia ter  tudo para ser o cara mais sortudo do mundo, se não fosse pelo seu alto nível de testosterona. Espero que um dia você entenda que sortudo é quem tem coragem de amar e deixar ser amado também ...”


Ela parou, pensou e salvou como rascunhos.  Deu-se conta que ele é só um cara azarado, talvez covarde. Mas azarado, por ter sempre mulheres que poderiam ser um grande amor e acabam sendo só mais uma.  Ela não envia, não responde, não faz nada. Deixa apenas o camarada na companhia de suas lembranças acompanhadas de seu silêncio.


Ana da Mata