sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Eu escolho você

Você é lindo e com certeza, foi moldado por anjos de muito bom gosto. Batido em clara de neve o "Fique com quem te faz bem", era seu lembrete para fugir de amores errados ou de paixões mascarados de amor. Atende todos os pré-requisitos de homens em extinção, assinamos contrato com um beijo sob uma lua minguante. Contrato de semanas, que se entendeu por meses. Na grande possibilidade, enfim, aconteceu. Passou na fase de experiência e se tornou efetivo na minha vida.


Eu reclamo que você é muito agitado e você reclama que eu sou muito preguiçosa. Você fica insuportavelmente sexy quando está jogando bola e eu tenho vontade te lamber inteiro. Eu me arrumo por quatro horas seguidas e você nunca diz nada, mas quando eu estou descabelada, com uma camisa tua, você me surpreende com elogios. Eu fico louca da vida quando você se acha o dono da razão e diz "teimoso é quem teima comigo". E você fica com rugas na testa quando para o que está fazendo, para abrir uma latinha de brigadeiro com abridor pra mim, porque já me ensinou a manusear um milhão de vezes e eu nunca aprendo. Você, sem dúvida alguma, me trocaria por uma noite com o Batman. E eu, sem sombra de dúvida, te trocaria por uma noite com a Katy Perry.

Eu escolho você, por tantos motivos. Aprendi que casar com a pessoa que você escolheu é ter mais possibilidades, mais motivos, mais vontades. Ter mais aprendizados, mais caminhos, mais continuações. É aprender a conviver, compreender e aceitar tudo o que não entendíamos quando namorados. É não ter que decidir tudo sozinha. Estar com quem se escolhe é sentir vontade de chegar em casa bem rápido depois de um dia ruim ou bom, tanto faz, só para estar com quem importa de verdade. É ter um refúgio de toda a barulheira e correria do mundo lá fora. É ter um abrigo, um abraço. É saber a diferença entre margarina e manteiga. É ir passear com nosso cachorro todo final de tarde e aos domingos após o jogo.

Estar com que escolheu é não ter medo de ser feliz, de se entregar, de amar. É dividir angústias, medos e receios. É ser pares em dias ímpares, mas também ser soma em momentos de subtração. É ter alguém pra chamar de meu, mesmo sabendo que não somos donos de ninguém, mas que você é o MEU alguém. Estar com quem se escolhe é ter canções, badalações. É ter um ombro amigo. É ter mais cafunés e pés entrelaçados. É fazer mais planos e economizar juntos. E eu sei que posso ser boba e rir por rir ou chorar por chorar, ou até brigar por brigar, mas que você nunca dormirá de costas para mim.

Casamento não é somente casa própria, sexo e filhos. Casar com quem a gente escolhe é, finalmente, ir em rumo ao para sempre. E eu escolho você, por todo o resto dos dias da minha existência. 



Ana da Mata

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Sobre namoro à distância

Não somos desses casais que podem ir ao cinema ver cada estreia semanal. Muito menos estarmos juntos em todas as reuniões familiares, nem nos abraçarmos quando algo de bom acontece no nosso cotidiano. Por outro lado, nós nos falamos muito mais ao telefone, eu o vejo todos - ou quase todos os dias pela web cam. O que conforta, um pouco. Nos vemos a cada mês, ou dois. E por incrível que pareça, somos felizes. Existe ciúme. Existe diálogo. Existe sexo. Existe desejo. Existe saudade. E, existe amor. É engraçado que, as pessoas criticam, mas não sentem nem um décimo do que é amar e não pode ver sempre. E a saudade, não é tão boa, machuca.

Assumimos a nossa escolha, quando o final de semana é de amigos, é de amigos. Mas quando é nosso, é totalmente nosso. Namoro à distância só não dá certo, quando ambos são imaturos. Quando não conseguem lidar com a desconfiança, com o ciúmes, com o autocontrole. A paciência preenche toda a distância, preenche todo o vazio que sentimos. O segredo de tudo está na força do amor. Bobeira? Não! Se não há amor o suficiente, parem agora. Será muito pior quando começarem a conviver juntos. Além de que, amor à distância não supre carência.

Às vezes, até sou surpreendida com carta no correio. Vantagem dos mil km. Se temos problema, conversamos. Se temos segredos, partilhamos. Se temos angústias, aconselhamos. Se temos saudades, guardamos. É o que nos mantém juntos. Até hoje. E quando finalmente, ficarmos juntos, teremos que aprender a tal da convivência. Mas, se já enfrentamos tantos obstáculos para continuar com nosso namoro. A convivência só virá para nos deixar mais felizes. Cada encontro, uma explosão de borboletas no estômago. A cada volta para casa, um choro. E entre nós, uma saudade. Eu sinto vontade de abraçá-lo, de beijá-lo, de brigar, de escutar sussurros no pé do ouvido. Mas namoro à distância é isso mesmo: uma linha tênue entre a paciência e a saudade.

Distância é sinônimo de saudade, não de obstáculo. Quando comparada ao amor, a distância fica pequena que quase some... E sim, eu faria tudo outra vez. Eu desistiria do para sempre, por um final de semana ao lado dele. 

Pensando sobre toda essa questão, medo do futuro, medo de acabar, medo dele conhecer uma gostosa na cidade dele e qualquer outra coisa que nos separe. Se um dia ficaremos juntos, todos os dias. Ou se passaremos a morar perto, ou se ele desistir no meio da nossa trajetória... Eu chorei. Eu me afastei. Eu recuei.  Ele percebeu e me questionou, eu então relatei tudo o que sentia. E perguntei: "Você não têm medo?" Ele respondeu: "Por que sentiria? Nada é impossível para um coração cheio de vontade." 







Ana da Mata



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Você não vale a pena

Com você, eu queria que fosse diferente. Quis me enrolar numa fita vermelha, correr ao teu apartamento e me dar de presente. Eu não quis fazer de faz-de-contas. Eu não sei viver pela metade. E eu não sei quase te amar. Você era um pot-pourri de tudo que era bom. Eu precisava de uma explicação muito bem dada do Cupido, com argumento plausíveis para abandonar tudo que estava fazendo, para correr, encher o pé de bolha e atender um orgulho seu... Ah, querido. Que pena que você não valeu a pena.

 Acabou. Não lembro de uma despedida melancólica, nem de um "podemos ser amigos?" Não, acho que foi algo mais parecido com "visualizou e não respondeu". Venhamos e convenhamos que um quiçá dá um gostinho de quero mais. Comigo, era sempre mais. O desejo tem a mesma força que a paixão, só não nos deixa tão burros. Eu não sei ser válvula de escape, não sei responder às expectativas de vontades efêmeras. Eu me enganei na tua certeza de ser o que não é, fingindo ser real, o que não existia. 

Tempos depois, eu o encontrei. Ele fez sinal de cumprimento e eu queria que ele notasse o quão linda eu estava, queria que ele se arrependesse e voltasse correndo com brownies e beijasse minha orelha. Mas não, não é assim. Ele sabe que a falta de excesso faz mal ao ego dele. Meu celular piscou, era uma mensagem dele. Dele! E dizia "Que pena que o seu amor acabou... eu sinto sua falta!" Eu respondi "Não, meu bem. Não acabou. Ele só continua em outra pessoa."

Com você eu aprendi que não se perde tempo com qualquer um. Não adianta falar aquilo que não querem escutar. Perda de tempo e saliva. Não adianta fazer muito por pessoas que não querem ser ajudadas. Perda de tempo e paciência. Não adianta fazer tudo por alguém que não quer ser reconquistado. Perda de tempo e sentimento. Não adianta tentar fazer nada por pessoas que não descruzam os próprios braços para ajudarem a si mesmos. Falta de amor próprio. Não adianta perder tempo com quem não vale o meu tempo e nem o meu sincero afeto.

Você não vale a pena, só a pena cabe à você. Não vale. Não vale! Nem mesmo uma bolha do meu dedinho. 


Ana da Mata

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O sapo da vida real

05/agos/2006 - Pág. 101

Querido Diário,

 Ontem foi meu encontro com o Renan, eu venho falando dele há algumas semanas. Desastre, define. Foi uma PEQUENA e tortuosa loucura. Este meu vício em encontrar caras que eu conheço no Bate Papo da Uol e me encantam no MSN, acabou hoje.

Nós nos encontramos no terminal onde ele pediu que eu fosse. Quando eu o vi, não acreditei. Quis disfarçar, abaixar a cabeça, fingir que não o vi e correr. Ele era baixinho, andava todo torto, parecia estar chapado, o cabelo me deu a impressão que não via água há dias. Seus olhos estavam vermelhos, parece que nem dormiu na noite anterior do encontro. Me assustei logo que eu o vi. Não tem nada a ver com o cara das fotos. Antes que eu pudesse falar ou fazer qualquer coisa sem sentido, ele me grita e corre ao meu encontro. Vê-lo correr me assustou mais ainda. Era o torto em pessoa. "Ele é carinhoso, meigo, é só uma má impressão do homem que eu idealizei" pensei.
Caminhamos de mãos dadas até chegar a casa dele. Que sufoco! Quanto mais eu andava, mais deserto a cidade ficava. E quanto mais eu tentava decorar o caminho, mais andavámos em círculos, vielas, subidas, esquerdas e nada de ponto de referência. Bairro residêncial de rico pelo menos têm camêras de segurança por todo lado.

Ele era totalmente sem noção, dizia coisas desconexas, ria sem motivo. Quando chegamos na rua da casa dele, ele me largou e disse que era para nenhum vizinho ver que ele estava com alguém, porque a casa dele estava vazia e seus pais haviam confiado em deixá-lo sozinho neste final de semana. Pais viajando? Sozinho? Rua deserta? Jesus, Maria, José!
Quando chegamos na casa dele (UAU!), ele mora numa casa linda! Nem acreditava que o tamanho do banheiro dele, era proporcional ao tamanho do meu quarto. A casa era uma labirinto rico, porém naquela imensidão eu estava sozinha, o que me causava pânico. A cada cômodo que eu andava, sentia que tinha algum comparsa dele escondido para me atacar. Ele foi gentil o tempo todo, mas eu ficava paranoiando com a ideia de que aquilo tudo era a pior coisa que eu estava fazendo. E era.

 Na garagem havia duas motos e um carro que eu nem sei falar, muito menos escrever. Imaginei que um cara rico não estragaria sua vida estuprando uma garotinha. Ou será que ele era rico porque era traficante?
Por que mesmo eu vim ao encontro desse homem? O medo me dominava.

Sentamos no sofá, ele pediu uma pizza. Enquanto eu esperava ansiosamente a chegada do meu frango com catupiry, eu tentava ignora-lo vendo o último capítulo da minha novela favorita. Mas ele se aproximou, sussurrando coisas bonitas e, então, ele me beijou. Definitivamente, eu quis correr mais que tudo naquele momento. Não era beijo, era só uma distribuição grátis de saliva. Ele foi tentando me seduzir, beijava meu pescoço, enquanto eu olhava para o teto sentindo sua baba escorrer em mim e me perguntava "Deus, é isso mesmo? Príncipes virtuais babam? Ele está perdendo o BV comigo? Príncipe que nada, é um sapo da vida real"  Ele tirou algumas camisinhas do bolso e jogou em cima do sofá e sorriu de lado.  Ouço o barulho da campainha. UFA! A pizza chegou!

Subimos para o quarto dele, uma cama de solteiro. Que ótimo, iremos dormir juntos e numa cama de solteiro! Antes que ele quisesse fazer qualquer coisa, eu disse ligeiramente um boa noite e deitei de costas para ele. Ele ficou sentado na cama, ao meu lado. Disse que ia me observar dormir, porque estava sem sono. Ok, mas só observa. Sou virgem! Que raios estou fazendo aqui? Estou louca!  O tempo passa e vou ficando sonolenta, mas já estava fingindo que dormia há algum tempo. De repente, escuto o som de como se alguém estivesse levando umas palmadas e a cama não parava de balançar. Meu coração acelerava, o frio na barriga estava abaixo de zero e o medo me transformou numa estátua. Até que ouvi uns gemidos. Não pode ser! Ele não está se masturbando ao meu lado!

Não aguentei, levantei e o vi todo melecado. Éca! "Eu sou virgem, seu nojento!" gritei. Ele se assustou, correu ao banheiro e voltou pedindo mil desculpas. Suas bochechas estavam coradas. E eu desesperada. Que loucura! Eu queria gritar, correr, chamar a polícia, bater até ele desmaiar, qualquer coisa que me tirasse dali.  Eu achei que esse peste era, finalmente, o amor da minha vida. Depois do centésimo encontro de internet. Decepção, nenhum presta. Droga!  O dia nasceu e eu pulei da cama, contei os segundos para amanhecer logo. E foi quase uma eternidade. Ele roncou a noite inteira. Eu disse que precisava ir pra casa, ele insistiu que queria recompensar o descuido da noite anterior. Inventei um compromisso familiar. Ele me levou até a estação, fiquei aliviada quando o vão entre o trem e a plataforma nos separava. Para sempre.






Ana da Mata