quinta-feira, 23 de julho de 2015

Não foi só amor - Carta aberta para o meu ex

Foi querer estar perto e querer cuidar, principalmente, quando ele fazia um drama exagerado dizendo que está gripado e eu rir por dentro. Fazer um chá, enquanto ele me esnobava com cara de nojo (já que o chá não tinha um cheiro muito agradável), eu explicava que minha vó que me ensinou uma receita que faz milagre. Foi querer tomar todas suas dores e medos.

Não foi premeditado, não foi combinado e nem arranjado. Foi de repente, de lugar algum e almejar que ele se cuidasse a cada boa noite, que ele não se esquecesse de desligar o ferro após passar a camisa e se possível, acordar cedo sem desligar o despertador e dormir mais cinco minutinhos, porque, esse cinco minutinhos sempre se transformavam em vinte. Foi protetor, foi cuidado.

Não foi só mais uma história de verão. Foi história de quatro estações completas, foi de ver o sol se pôr e fazer planos observando as estrelas, foi de ver as folhas caírem secas na calçada, foi de dormir de conchinha ao som da chuva e ouvir sussurros românticos no pé do ouvido, foi de chocolate quente, meia e cobertas num sábado à noite. Foi de encantos ao ver as flores nascendo novamente. Foi sereno, foi brisa leve.

Não foi paixonite, nem platônico. Foi de se entregar, de se jogar, de uma vez – sem pensar. Foi de viciar, rir e chorar. Foi de uma urgência sem precedentes intimar a presença dele, toda vez que eu lembrava que os olhos dele sorriam ao me ver. Foi de brigar por besteira e fazer as pazes com sexo. Foi de corpo e alma.

Não foi o jeito dele de rir a risada mais engraçada que existe. Foi escutar, atentamente, os problemas familiares dele e segurar sua mão, mesmo sem saber que conselho dar. Foi cuidar do cachorro dele, enquanto ele estava fora a trabalho e mandar fotos pra mostrar como eu sei me virar bem sozinha, fazer comida e não colocar fogo na casa. Foi carinho, foi cumplicidade.

Não foi ter uma música só nossa, nem textos feitos só pra ele, nem ter poesias só pra mim. Foi para sempre e acabou.

Decidi não sofrer mais, já que quem manda nessa porra sou eu.

Faltou coragem de assumir tudo o que você foi em mim e, talvez você me diga que eu fui longe demais e que você não queria me magoar. E eu vou compreender. Não vou te culpar de nada, exigir explicações, traduzir desculpas mal interpretadas... Não. Eu estou encarando sem medo que o tempo passa, que daqui alguns minutos serão só mais minutos passados e daqui alguns anos talvez você nem se lembre de mim. Portanto, que o destino nos permita novos reencontros... Porque é bom sentir mais uma vez e não se morre de amor, afinal.

Só posso te agradecer, sem ressentimentos e sem mágoas, quem eu sou hoje.
E de tudo que deixou de fazer por mim, pra eu entender onde eu precisava chegar. Se teve uma lição que eu aprendi, é que esses minutos que passam, apesar de nos levar momentos bons, eles deixam o amadurecimento. E talvez, nossa memória filtre somente o que o coração precisa guardar. Não foi só amor, você sabe... Por isso eu finalizo este texto aqui, fragmentado do que me serviu de aprendizado.


                                                                     Ana da Mata

terça-feira, 14 de julho de 2015

Causa e efeito

Eu chorei por você ter ido. Chorei por não entender o motivo de você ter partido. Chorei pelas declarações não feitas, pelos abraços não dados. Chorei de saudade dos momentos que não tivemos, das razões não explicadas. Chorei por tudo que se foi, sem vir. Chorei pelo seu bíceps quente, que um dia, me envolveu até no calor. Chorei pela sua barba que pinicava meu rosto e por ter deixado seu cheiro no meu travesseiro. Chorei por ter gostado tanto de você e sem nenhuma razão aparente.

Chorei pelas palavras não ditas, porque não importa nada do que diz  - só como diz... Com esse seu jeito de morder a boca, na tentativa de conquistar alguma menina boba, ou de achar que alguém repara. Não, ninguém se importa com esse seu desmazelo. Chorei por não ter dado certo, sem termos a chance de tentar. Chorei por estar chorando por você, porque eu sei que os psicólogos, os livros de autoajuda e todos os bons amigos, dizem que é perda de tempo chorar por quem é feliz sem a gente. Mas já viu coração bobo entender sem sofrer? 

Fui te escrever um e-mail, dizendo mentiras. Que já te esqueci e coisas do tipo. Digitei as primeiras letras do teu nome e seu e-mail não foi encontrado. E, se a tecnologia mais avançada já te esqueceu, acha mesmo que eu não consigo?


Se você voltar, vai agir como se nada tivesse acontecido, como sempre e pra variar. Vai se fazer de tonto e esquecer de colocar os pingos nos is. Vai me convidar pra um café, rir e dizer que é brincadeira, me conhecendo bem e sabendo que prefiro bar à cafeteria. Vai me dizer que conseguiu alcançar seus objetivos e que só precisava de um tempo pra você.

Se voltar, vai achar seus amigos perdidos. Vão relembrar momentos e revivê-los também. Você vai achar todos os lugares que sentiu falta e sua mente perdeu. Vai achar todos os motivos do mundo para querer ficar e fazer tudo de novo, outra vez. Você vai achar vontade, que outrora se perdeu em meio a seus devaneios. Você vai voltar e achar tudo que estava perdido, suspenso no ar e ecoado em sua memória.

Você vai achar tudo, exceto eu. É impossível achar o que você mesmo abandonou.

Você vai voltar. Você sempre volta. Mas tô aqui, rezando e pedindo a todos os deuses que você não volte. A carne é fraca e você mais fraco ainda. Você nunca fica e nunca luta por mim. Nunca se expressa e nunca se impõe. Não adianta vir falar de amadurecimento, se quem sempre foge é você. 

Então, se tiver lendo este texto... não volte dizendo coisas sem sentido, palavras desconexas não me fazendo entender nada. Tentando me encher de piadas sem graça, pra quebrar todo o gelo que há entre nós. Lamento por tudo e por você. E eu espero que você não se arrependa de nada, do que teria valido a pena. Vai doer muito mais em você, do que em mim. Simplesmente faça o que sabe fazer de melhor: suma.

Tomei uma garrafa de vergonha na cara e algumas doses de desapego. O resultado? Se você voltar, não vai me encontrar. 

É o efeito da sua causa. 



                                                       Ana da Mata




segunda-feira, 13 de julho de 2015

Irmã germana

Quando éramos crianças, eu vestia uma luva amarela de lavar louça, fazia uma voz grossa, movia os dedos em sua direção e dizia que ia te pegar. Não sei com que olhar as crianças veem isso. Mas você ficava, assustadoramente, chorona. E seu choro era tão fofo, tão musical, que eu fazia questão de repetir. Só pra ouvir mais uma vez. 

Nosso destino já estava traçado.Você brigava com nossos primos por baterem em mim, mesmo sendo a caçula, o que não mudou nada, já que você era a mais valente. Você era dona das bochechas mais fofas e rosadas que eu já havia visto. Dona de cabelos encaracolados e dona de um sorriso pra lá de meigo. Mas aí você cresceu, enfim... Fique feliz só de saber que um dia você já foi bonitinha.  

Tínhamos bolo no dia das crianças, ovos com brinquedo na páscoa e amigo secreto no Natal. Tínhamos presentes e bolos decorados em aniversários, churrascos a rodo de família e viagens pra praia que nem lembramos mais. Você chorava por cada careta minha, não satisfeita naquele drama sem necessidade, gritava "Mãe, olha ela aqui" fazendo que eu levasse bronca à toa. Tomávamos banho juntas, dormíamos na mesma cama, vivíamos em pé de guerra, ríamos das mesmas besteiras e chorávamos com medo do homem do saco. Infância concluída com sucesso. 

O tempo foi passando e mostrando que nem tudo é pic esconde, nem bicicleta, nem pega-pega. A adolescência turbulenta de coisas boas em meio a coisas ruins também. Separação dos nossos pais, primeira menstruação, primeira noite fora de casa, primeiro beijo, primeira decepção. Descobrimos que existe lápis de olho, esmalte vermelho, vestidos (eu mais que você) e meninos com cara de bunda, mas que nos faziam tão bobas quanto éramos de fato. E que nem toda brincadeira acaba em risada, já que adultos esquecem de serem crianças e levam tudo ao pé da letra. 


Hoje, mais velhas descobrimos que o homem do saco era só um motivo pra nos fazer obedecer nossos pais. Que a barata não ia nos pegar se não terminássemos nossa janta. Que apesar do tempo passar tão depressa, certas coisas não mudam. Eu continuo com medo do escuro, você continua sendo a caçula que me defende. Eu falo palavrão, você fala de coração. Você é sentimental demais e me irrita falar de sentimento até quando não estamos falando. Você tem um jeito só seu e, sabe-se lá como, conquista até a pessoa mais exigente. 

Não somos irmãs porque compartilhamos o mesmo pai e a mesma mãe, uma vez que você foi achada no lixo. Somos irmãs pelo laço afetivo, pelo companheirismo, pelas confidências. Você sabe que está meu coração e eu nunca estou sem ele. Aonde eu vou, você vai comigo.

 E se um dia você achar que a distância vai nos separar... Ah, não. Lembre-se que a distância é só palavra inventada por alguém bem preguiçoso.



Ana da Mata

terça-feira, 7 de julho de 2015

Você mora nos detalhes

Eu queria saber a proporção de você em mim. Minuciosamente, medi suas características, pesei defeitos, somei suas qualidades, dividi meus medos e subtraí mágoas guardadas. Descobri que você não mora só em meus pensamentos e no meu coração, você mora nos detalhes. Meus detalhes. Faz moradia em mim e de tudo que faz parte da minha vida. E sua ausência é tão barulhenta quanto sua presença, só que a ausência entristece e sua presença prevalece. 

Talvez você não saiba, mas sempre que está cortando cebola, sua testa enruga, você pisca sem parar e deixa suas mãos bem afastadas do seu rosto, na tentativa de não se deixar chorar. Você é durão demais pra se deixar lacrimejar por cebolas e, ainda deixar que eu veja isso. 

Você pode não perceber, mas quando está jogando bola, você se comporta como um menino na escola, como se tivesse uma mãe te observando fora da quadra. Acena pra mim enquanto o jogo está parado, manda beijo quando faz gol e, sempre olha pra ver se eu estou prestando atenção ou se já fiz amizade com alguém e comecei a tagalerar, afinal, o objetivo de acordar cedo num sábado é ter ver jogar e  ver  você tentando driblar o cara de 1.90m do outro time. E, sempre que o jogo termina - sua primeira pergunta é: "Você viu aquele lance?". Eu não vi, nunca vejo. Tô  distraída reparando na nuvem, na grama verde, na garotinha correndo atrás de um passarinho, mas eu disfarço e respondo "jogou demais, amor". Não é sempre assim, tá? Às vezes, eu te ajudo gritar com o juiz pela falta não marcada. 

Quando você está com sono, se torna a pessoa mais carente que existe. Quer colo, cafuné e conchinha. Não satisfeito, joga braços e pernas em cima do meu corpo, mas não importa. Melhor que dormir de conchinha, é dormir entrelaçada em você. Acorda no meio da noite pra brigar comigo, porque eu roubei a coberta toda pra mim. Me empurra para o meu lado da cama e me lembra - bufando - que a finalidade de ter comprado uma cama king size, era pra você ter mais espaço pra dormir. 

Talvez você não saiba, mas sempre que está emburrado com alguma coisa, fica de bico. E fica tão fofo, que me dá vontade de te apertar, eu não resisto à uma dose de charme masculina. Então eu rio, te abraço, detalho seu jeito melindrado e você ri. Continuo te distraindo com algumas brincadeiras idiotas e funcionam. Porque você é tão bobo quanto eu. Gargalha sem parar, escandalosamente alto... e sexy. Abre a boca como se fosse engolir a mesa que está na sua cozinha, se encurva para trás, seus olhos ficam quase fechados e seus risos sempre terminam com "ai, ai... como você é besta". E passado alguns minutos, você já nem se lembra mais porque estava irritado.


Peculiaridades de você em mim, em nós. Eu sei que posso ser tola, mas já viu alguém apaixonada não ser? São detalhes, talvez irrelevante, mas é  impossível não ficar feliz com isso. 

Você não sabe, mas toda vez que me abraça, eu sorrio. E por um segundo, eu quero congelar este instante, porque, quando você me abraça, o mundo todo para lá fora. E quando você me solta e nossos olhos se encontram, é naquele olhar que eu me derreto. É no seu olhar que eu tenho certeza que é você. Sempre será você. Quando você sorri, é arco-íris pra minha visão e eu paro, observo e concluo... é desse seu sorriso que minha alma precisa. E quando eu olho pra essa sua carinha, eu entendo o porquê  amor faz bem a vida e ao coração. 

Ana da Mata