domingo, 28 de fevereiro de 2016

Ela tem medo de se apaixonar

Ela tem medo de acordar e não ter ninguém pra dar bom dia. De não ter a quem contar como foi no trabalho, mesmo que tenha sido insuportavelmente chato. De não ter a quem agarrar quando acordar no meio da noite assustada com os trovões. De não ter com quem dividir seus sonhos mirabolantes. Tem medo de não ter companhia em suas viagens. De ser vista como desesperada por sair com três caras diferentes na mesma semana, na tentativa de encontrar a metade da sua laranja. Tem medo de usar aliança e tem medo que a aliança acabe mofada numa caixa. 

Ela tem medo de não saber lidar com a falta de luz e ter que enfrentar o escuro sozinha. De ir ao cinema, acompanhada com pipocas, bala de gomas e um bucado de lenços e  deixar transparecer o abandono. De viver sozinha e não ter esperanças pra perceber o que merece sua atenção. De desperdiçar espaço em seu coração e não ter fé pra receber quem merece seu afeto. Tem medo que seu laço esteja frouxo demais, não aguente e solte. Tem medo que o laço vire nó. Ela tem medo de uma história encerrada sem nem chegar no prefácio. Tem medo da invisibilidade do para sempre. 

Ela tem medo de ir ao bar sozinha e se contentar em virar amiga dos garçons por terem tido compaixão à solidão dela. De criar expectativas numa relação tão bonita, sem ao menos vive-la. Medo que ele seja pior que suas incertezas e melhor que suas dúvidas. Medo de sair do zero com menos zero. De se sentir observada e descobrir que rói as unhas. De vê-lo feliz, porque o término de uma relação não dói tanto até ver que ele supostamente está feliz com outra, então já nem tem tanto sentido segurar o osso. 

Ela tem medo de acabar como uma tia velha, cujo a vida se resume em apertar bochechas fofas e alimentar peixes. De ter que ouvir uma música romântica e não ter com quem dividir. De ficar aborrecida com o engarrafamento e não ter pra quem mandar mensagem. Da sinceridade que vem junto com a timidez. De ter o coração fincado, destruído ou conquistado. De estar certa com suas intuições, independente da falta de lógica. Tem medo do excesso de felicidade e da falta que ela faz. Ela tem medo de ser controlada e de ser livre sem o amor dele. 

Ela tem medo de pedir pra ele ficar. De pedir pra ele ir. De telefonar. De atender. Tem medo de despedidas, de rompimentos e de finais. De ser tímida e não saber o que dizer. De dizer e não saber argumentar. De ser sensível e não ter colo pra chorar. De ser estúpida e não ter com quem reclamar. Medo de mostrar sua fraqueza e não saber improvisar o que não foi imaginado. Tem medo de errar e não pedir desculpas, porque o orgulho vai além do que a psicologia pode explicar. Tem medo de ser quem é e assustar e ser quem não é só pra agradar. 

Ela tem medo do cheiro que fica no travesseiro. De toalha na cama. De chinelo na sala. De louça suja na pia. Da convivência. Tem medo do que fica depois que ele vai embora. Medo de se contentar com o escasso de outra relação. Tem medo do vício que é gostar de alguém. Tem medo de feriados sem ele. De tardes tediosas sem ele. De expressões mal interpretadas e de aparências claramente traduzidas. Tem medo do costume da presença e também tem medo da ausência. De ser curiosa e procurar o que não quer ver. Tem medo das lembranças que ficam e dos momentos que não chegaram. 

Ela tem medo que ele seja tudo o que ela quer. Medo dele de rir das suas piadas sem graça. E medo que ele a elogie sem motivo algum. Tem medo de brigar e fazer as pazes com sexo. De não saber ser deliciosamente interessante quando a rotina chegar. Tem medo que ele seja a parte mais bonita de tudo a que pertence. Ela tem medo de sentir medo. E tem medo de deixar o medo ir. Dele ser o cara certo, no momento certo e sofrer o que já não aguenta mais. Tem medo de oferecer mais do que está disposta a doar e tem medo de não ganhar a felicidade que merece ter. 

Ela tem medo do tempo passar e estar sem ele. E tem medo de perder tempo com ele. 
Ela tem medo de se apaixonar. E por já estar apaixonada, ela tem medo. 




                                                   Ana da Mata

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Ela é de humanas

Ela aproveita ao máximo programas no orçamento de 2 reais e ainda volta com mil histórias pra contar. Tem coragem de enfrentar a penúria munida de boas amigas e jurupinga ou uma boa vodca, depende do que render da vaquinha. Ela faz planos incertos para o futuro, com possibilidades de acabar com dread, tatuada e cercada de miçangas numa praia. Ela é criativa, inventa apelidos educados para pessoas que são tipo o Voldemort, não pode falar o nome. 

Ela fica com cara de bocó quando fazem piadas sobre raiz quadrada ou qualquer outra coisa que dependa de seu raciocínio lógico. Ela finge que entende e que está concentrada no que os outros estão dizendo, mas ela não está. Ela está relembrando acontecimentos de 2006 ou imaginando o que o crush está fazendo no exato momento. Ela voa em seus devaneios. Ela se confunde, se atrapalha, esquece, deixa cair.

Ela sempre diz que gosta de ler, viajar, ouvir música em suas horas vagas e, de fato ela gosta. Mas ela passa a maior parte do tempo dela, observando o caminhar das nuvens, transformando-os em corações, animais e outras formas inusitadas. Ela não tem problema em fazer passeios de índio, ela gosta mesmo de aplaudir o sol em meio à natureza. Ela colore tudo que é cinza, por onde passa. Ela é engraçada, mas sabe ser sarcástica. 

Ela não tem maturidade para acompanhar grupos de amigos, ela ainda está lendo a primeira mensagem e já surgem outras novas 300. Então desiste, não lê, dá uma risadinha e comenta algo desconexo só para não passar despercebida. Ela não sabe guiar um perdido na rua, porque é ela de distraídas. Talvez, esteja tão perdida quanto quem perguntou informações à ela. Ela ama viajar e não tem problema se não tiver dinheiro, ela é capaz de viajar sem sair do quarto.

Ela não sabe lidar com frustrações, com brigas e chiliques desnecessários. Ela sabe que não dá pra viver só à merce da fotossíntese, mas sabe que dá se adicionar algumas cervejas e boas companhias. Ela gosta de falar... e muito. Faz amizades como quem troca de roupa. Conversa com a atendente do supermercado e vira melhor amiga em 5 minutos da moça que conheceu no ônibus. Comunicóloga por natureza e por formação. O coração dela vem acompanhado com doses extras de humildade e recheado com gentilezas. 

Ela sente assiduamente. Tem dor que lateja, apesar de nenhum sorriso passar despercebido nela. Ela vive, relembra, quer de novo e quer mais uma vez. Ela não soma, coleciona. Ela não se dá bem com números, mas tudo bem. O que importa é qualidade. Ela é a miga loca que, provavelmente, alguém não vive sem. Ela é movida por sentimentos, sonhos, sensações, simplicidade, calor humano,  amores platônicos e pôr do sol. 

Ela é entrelinhas. É simples. Ela é boêmia. Ela é corpo e alma. Ela é inigualável. Ela é de humanas. 


                                                         Ana da Mata

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Cãopanheiros

Ter um cão não é somente ter um animal de estimação, é ter um membro da família que não fala, late. É ser inteiramente responsável por uma vida. Tem que dar banho, alimentar, levar ao veterinário e caso se comporte, ganhar biscoitos sabor carne e um osso pra brincar. É saber administrar seu tempo livre, porque ele também merece atenção. É ficar cansada de tentar tirar uma selfie sem que ele tente comer seu celular, sem que ele pule um bilhão de vezes por segundo. É se surpreender todo dia com a sensibilidade e excesso de alegria quando ele te vê. E com a falta que ele também sente de você.
Ter um cão é substituir Rivotril por uma longa conversa, sem escutar sermão ou levar puxada de orelha, e ainda ganhar uma patinha roçando na sua mão pedindo carinho. O que os cães não sabem é que suas carinhas por si só já imploram por atenção com tanta fofura. É ficar preocupada quando ele não late, não pula e nem mostra a língua. É ter que pedir ajuda para levá-lo a um passeio, porque ele já cresceu o suficiente para te arrastar por quarteirões. É não implorar por reciprocidade e sim agradecer por mutualidade.
É chegar em casa, depois de um dia cansativo, desejando um banho e uma cama, mas ser recebido com pulos entusiasmados. É ter que burlar a inteligência do seu cão, pegando a coleira dizendo que o levará para um passeio divertido, mas o passeio é um banho. É ter um baita trabalho para dar o remédio e conseguir depois de centenas de tentativas. É ficar vigiando para que ele não passe pela brecha da garagem e volte pra casa depois de te enrugar de preocupação.
Ter um cão é notar que ele realmente tem hábitos seus. Que qualquer objeto na sua casa é visto como brinquedo comestível. E que não importa o quanto você diga, tente e brigue... ele sempre acabará ganhando espaço no seu sofá. Saber dizer não a um cachorro só é possível quando se tem pulso firme ou fechando os olhos para não resistir àquelas carinhas. Ter um cão é ser mãe ou pai. É você tentar tranquilizá-lo quando começa a trovejar, dizer que vai passar, mesmo tendo medo de trovões também.
É entender que cães fazem cocô, tanto quanto você. E é melhor viver com o cheiro do cocô do seu cão que com o cheiro da ausência dele. Vai por mim, é insuportável e não é digno. Ter um cão é aprender que ele não espera nada além da sua amizade. Que bons amigos não precisam ser estereotipados, terem formas, bom emprego e um carro. Bons amigos só precisam de um nome e um endereço para sabermos onde encontrá-los. Ter um cão é ter amor por outro ser. 
Só quem tem cachorro sabe o que significa cãopanheirismo. E só quem tem vira lata sabe que raça não os difere de nenhum outro cão. Que são tão brincalhões, amorosos e lindos como outros cães de raça. Dizem que cães puxam aos seus donos, só a forma como meu cachorro age com pessoas que não merecem meu afeto, diz tudo. Não fique com preguiça de levar seu cachorro para passear, não adie mais para dar atenção a ele. Dá trabalho. É cansativo. Eles têm pilhas douradoras, talvez até intermináveis. Você vai trabalhar com pelo de cachorro e tem que aspirar sua casa duas vezes na semana. Mas, eu garanto que seu tempo extra com ele, será retribuído com lambeijos incansáveis.
Não dá pra exigir que um cachorro se comporte como um robô que não late, não faz bagunça. Cães não aprendem no grito, nos maus tratos. Se você inventa mil justificativas pra falta de carinho, bom sujeito você não é. Eles não querem seu dinheiro, seus bens, o que é seu. Cães amam na medida que são amados.
Seja amigo de um cão e ele será o seu.






Ana da Mata