segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Parece que o jogo virou

Eu te perdi. 

Quando você se foi, fiquei a um passo de cair num abismo. Confesso que me vi sem esperança. Me vi inquieta, extremamente aflita. Chorava até ter pena de mim, me retraí. Inventava mil desculpas para não sair de casa, porque eu sabia que meu único assunto seria você. Tudo ao meu redor, tinha sua cara, seu nome, seu cheiro. Era a saudade fincando em mim, o que não era mais digno de estar presente. 

Me vi tão sem chão, que te ligava desesperadamente, na expectativa que você me atendesse e dissesse "Oi amor, que bom que ligou", mas sem sucesso. Ligações não atendidas. Te mandava e-mails, lotei sua caixa de entrada, na ilusão que você me respondesse "Baby, adorei seu e-mail. Quero te ver", mas sem sucesso também. E-mails ignorados. 

Mas a vida te envia anjos, titulados como amigos, que te impedem de não cometer mais besteiras, que te ensinam a parar de apertar o enter, que te trazem vodca, brigadeiro de panela e batom vermelho. Que te fazem enxergar que você não está sozinha, que te apresentam lugares novos, caminhos diferentes. Então, conheci pessoas, no qual me trouxeram calma na alma. Trouxeram sorrisos sinceros, abraços apertados e sentimentos que me foram entregues sem esforço algum.

E num desses lugares nos encontramos. Não consegui esboçar nenhuma reação. Meu coração, que outrora, virava escola de samba ao te ver, aquietou-se. As borboletas no estômago, que um dia, moravam em mim, voaram. Os joelhos, que no passado, eram enfraquecidos perto de você, fortaleceram-se. Foi quando eu me vi sem amarras, sem apego, sem você. Sem nada que me prendesse a nós. Foi quando me vi dona de mim mesmo, com pé no chão, com as melhoras companhias que alguém poderia ter. 

Depois que me viu gargalhando com um rosto iluminado, em cima do meu salto 15, dentro do meu vestido decotado, que poderia ser convite para alguns. Mas não era. Era só eu aproveitando o tempo que perdi. Agora você me liga, insistentemente, como se eu fosse o único contato existe na agenda. Envia e-mails, como se eu fosse a única a ter acesso à tecnologia. Pergunta de mim para as minhas amigas, como se elas fossem ingênuas a ponto de falar qualquer coisa da minha vida. Meu bem, foram elas que me impediram de me rastejar ainda mais por você. 

Você me perdeu. 

Parece que o jogo virou, não é mesmo? 




Ana da Mata

domingo, 11 de dezembro de 2016

Quando você voltar, não vai me encontrar

Quando você voltar, a chave extra não estará no mesmo lugar. Na verdade, ela não existe mais. Foi jogada no lixo como tantas outras coisas. Você vai apertar a campainha e ninguém atenderá a porta, sentirá falta de ser recebido por mim com um sorriso largo, de orelha a orelha, te enchendo de beijos e perguntando como foi o seu dia. 

Quando você voltar, encontrará uma casa vazia e solitária. Não terá mais bagunças, som alto, filme na sala, canções desafinadas debaixo do chuveiro e alguém falando desenfreadamente no seu ouvido. Subirá as escadas, as roupas não estarão passadas. Terá que fazer você mesmo. O banheiro já não terá mais o meu shampoo, minha toalha e nem aquele amontoado de maquiagem espalhadas no gabinete. 

Quando você voltar, ficará surpreso, um tanto perplexo e talvez até arrependido. Sentirá falta de uma companhia, terá que aprender a conviver com o silêncio e se acostumar com a ausência de felicidade. Reagirá de forma suspeita, mas que lhe convém. Fingirá que está tudo bem, que tinha que ser assim, que há muito tempo estava batendo na mesma tecla, dando murro em ponto de faca. Repetirá isso várias vezes. Por um curto momento, até se convencer de que realmente era melhor pra nós dois. 

Quando você voltar, não vai entender nada. Questionará ao Universo se fez escolhas certas até aqui, se nasceu pra morrer sozinho, porque a vida a dois é muito atarefada. É coisa de gente grande. Requer responsabilidade, satisfações, boletos pagos e partilhas. Mas isso ainda não é pra você. Oras, onde fica os amigos? As viagens? As festas? Por que pagar conta em dia? Qual a necessidade de compartilhar tudo, com uma pessoa que só é sua companheira e mora contigo? Não é nada além disso e não merece saber de tudo, toda hora. 

Vida a dois é chato demais. Não é mesmo? Só que você esqueceu que na partilha, é totalmente possível envolver amigos, festas, viagens. Não só conhecimento e angústias. 

Em pensar que tínhamos tudo pra dar certo, exceto pela minha mania, minha estúpida mania de superabundância. De nunca me contentar com o suficiente, de querer me transbordar em tudo. E foi por isso que eu fui embora. Porque depois de todo o meu excesso de tentativas falhas, você insistia em dizer que fazia muito por nós. Mas o seu muito, pra mim, nunca passou de muito pouco.

Quando você voltar, não vai me encontrar. É impossível achar o que você mesmo abandonou. 





Ana da Mata

sábado, 10 de dezembro de 2016

Minha despedida de você

Eu sofri três vezes.

Começou quando nós terminamos.

Foi assustadoramente difícil me ver sem você ali, por perto. Me dando colo e dizendo que era só mais uma fase, que íamos passar por isso. Porque merecíamos o melhor e não menos que isso. Mas o meu coração, coitado, ainda tinha esperanças de que muito em breve tudo ia se revolver. Que colocaríamos todos os pingos no is, daríamos ponto final em todas as nossas vírgulas e daríamos certeza em todas as nossas dúvidas.

Meu coração estava errado. As dúvidas só aumentavam e foram piorando conforme sua oscilação de humor, cada vez que tentava se aproximar de mim. A pior parte é ter que superar a mania de te querer, porque só querer não basta. Relacionamento requer mais. Às vezes, muito mais do que estamos dispostos a doar, sentir e ceder.

Depois, sofri quando saí de casa.

Foi cruelmente triste fazer as malas. Separar cada peça de roupa e me lembrar de momentos bonitos. Andei pela casa e me despedi de cada cantinho que por muito tempo me pertenceu, desde a varanda que me ouviu cantarolando tantas e tantas vezes, até a garagem que serviu de parque de diversões pra mim e pros meus, seus, nossos cachorros.

Eu martelei ideias mirabolantes, centenas e centenas de vezes, na esperança de algumas delas me servir de gancho, pra ganhar assunto com você. Eu chorei durantes semanas, sem cessar. A dúvida era se ainda dava tempo de consertar o errado, se o errado merecia mesmo ser consertado. E se merecia, por que não fizemos.

Eu tinha o vício de falar de você. Porque tudo parecia lembrar você. Em conversas que deveriam ter o papel de me distrair e me fazer rir, me faziam me lembrar ainda mais você. Até a sua risada ecoava no pé do meu ouvido. Porque eu sabia que se você estivesse na mesma roda de conversa, você teria rido a risada mais escandalosa e teria feito todos ao seu redor cair em gargalhadas.

Por fim, sofri quando saí da sua vida.

Foi aterrorizador imaginar a vida sem você. Me vi perdida. Totalmente desnorteada. Imaginei estradas longas, nuvens carregadas, alguns lenços, um pote de sorvete e um bocado de filmes para me acompanharem em domingos cinzas. Imaginei também uma vida baseada em "e se". E se eu tivesse enfrentado o orgulho e dito o que merecia ser dito, e se eu tivesse escolhido ficar, e se eu estivesse sendo muito egoísta e mirando apenas no meu umbigo, e se estivesse sendo carrasca com quem foi tão bom comigo, por tanto tempo.. E se... E se... E se...

Talvez, essa foi a parte em que mais sofri.

Eu entendi que levar a vida não se resume em viver o presente, tentando arduamente arrumar o passado. É carregar um peso que não é suportável. Entendi que embora o nosso para sempre durou alguns anos, o que me resta é terminar esse para sempre vivendo. Sem medo. Eu fui sua por muito tempo, até quando não estávamos mais juntos... Eu continuei lá. Eu estava perto. Nos reaproximamos e por um momento nos tornamos amigos. Grandes amigos. Você me viu, me sentiu e hesitou. Preferiu priorizar sua grandiosa lista de amigos, praia e alguns engradados.

Foi quando eu encontrei o erro. Talvez os sete erros. Quem sabe, até mais. Suspirei aliviada de que, de fato, fiz a coisa certa. E você também. Alguns amores invadem nossa vida pra nos fazer crescer e aprender que algumas umas histórias já têm um fim, sem o interminável começo. Sem o suspense da duração até o final.

De tanto martelar, pensar e tentar entender onde falhamos, eu entendi de que era necessário passar por tudo isso pra chegar onde se deve estar. Eu estou bem, agora eu consigo gargalhar até chorar. Me vejo livre, sem você. Com estradas intermináveis e minhas. É só viver que ela te leva para lugares inimagináveis e encantadoramente surpreendentes.

Você foi o grande amor da minha vida... e a maior decepção também.



Ana da Mata

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Ele não te bate, mas...

Ele não te bate, mas exige que seja de tudo da maneira dele, porque ele banca a casa e te leva a crer que você não pode pagar o aluguel sozinha. Ele controla suas idas e vindas, mas tranquilo, ele te persuade dando um cartão de crédito para você poder comprar suas roupas. A dependência financeira, é só uma brecha para o início da dependência amorosa-emocional-psicológica.

Ele não te bate, mas te impõe limites porque mulher não pode usar batom vermelho, roupas curtas e tampouco sair com as amigas. Ele não aceita ouvir a sua opinião, nunca, sobre nada. Só existe a verdade dele e, mesmo com muita paciência, você ainda tenta conversar, porém o que te resta são berros ensurdecedores, seguidos de pedidos de desculpas com doces beijos. 

Ele não te bate, mas te convence que você precisa lavar a louça todos os dias, manter a casa impecavelmente limpa, transar todos os dias, porque se você não fazer, tem que faça. Ele é incapaz de dizer um elogio, qualquer que seja. Só se louca e inútil viraram adjetivos e eu não estou sabendo. Além disso, ele te faz inimiga do espelho, repetindo o quão gorda você está. 

Ele não te bate, mas vira e mexe, te faz chantagens emocionais, dizendo que irá terminar e que sem ele, você não é nada. Ele chora miséria para não sair com você, quando você quer, mas quando os amigos convidam, ele esbanja pagando a conta. Ele fica dias sem olhar na sua cara, porque te viu conversando com um amigo na rua. E só volta a falar com você, depois que você mendigou a atenção dele.


Ele não te bate, mas rompe suas amizades mais leais, porque elas são putas e você não pode se misturar com esse tipo de gente. Ele não te deixa ir à academia, porque você é o amor da vida dele e, você é tão linda, mas tão linda, que não pode ser vista por outros caras. Só ele. 

Ele não te bate, mas invade seu espaço e te priva de fazer coisas que te fazem feliz. Ele te constrange, diariamente, porque ele pode. Ele é o macho alfa. E AI de você se ousar questionar. Ele ganha no grito, no susto, na manipulação, nas ameaças. Ele está sempre certo, você não está certa e nem errada, você não tem opinião. 

Você já não sabe mais o que é sorrir pelo prazer de sorrir. Você nem lembra quando sentiu um orgasmo. A loucura começa quando você inventa mil justificativas pra atos dignos de pena. A tristeza começa quando você deixa de ser feliz, por acreditar que só será feliz com o único homem da Terra, porque você acredita de fato, que ele é o único. 
 "Ah, mas eu sou ciumenta também. Não sei como ele me aguenta", moça, para. Ele não te aguenta, ele te domina. 

E por quê? Você precisa sair dessa caixinha! Seu relacionamento é abusivo. No entanto, é difícil assumir a si mesmo, que o homem da sua vida, aquele lá que você apostou todas as suas fichas, fez planos, idealizou viagens e criou expectativas, não passa de um controlador incapaz de controlar a própria vida. E por ser tão incapaz de tanta coisa e ter nas mangas a manipulação, ele consegue te manter ali, fiel. 

Eu sei, não é fácil. A oscilação de humor dele, não condiz com as flores que ele te manda. Mas ele só manda quando te trata mal. Moça, não será menos fácil, se você não se permitir ser feliz, de verdade. Quem gosta de você, gosta com todas as suas falhas, medos e defeitos.  Mas ele vai mudar, né? Foi só um contratempo, ele estava de cabeça quente. Não vai se repetir. 

Vai sim. Repete. Uma. Duas. Três. De novo. Mais uma vez. Constantes hábitos que te fazem sentir um pássaro numa gaiola. 

A vida passa muito rápido pra se perder tempo com quem nos trava o riso. E se você tiver que implorar, mendigar por um amor, que seja o próprio. Porque é ele que te mantém de cabeça erguida e te convence de que você não merece qualquer um.

Perca o medo, crie coragem. Qualquer caminho que seguir sem ele, te levará a algum lugar melhor.




Perca-se. 


(Imagem: http://salvemeucasamento.com.br/agressao-verbal-vinda-de-um-cristao/)




Ana da Mata

domingo, 4 de dezembro de 2016

Saudade e um até breve

Fim.

A história da saudade começa assim, encerrando ciclos, fechando portas, encostando janelas, doando roupas, remendando o coração da forma que dá e torcer que o tempo passe depressa, pra afastar essa angústia que parece não acabar.

A gente pode se preparar para uma possível perda. Receber o resultado de um exame de uma pessoa querida, que traz consigo a incerteza do amanhã e alguns bocados de choros. Traz também a vontade de fazer o que dá tempo, sem nem mesmo saber pra onde ir ou que fazer. Mas agir. Nos confortar que mesmo com os dias contados, ainda dá pra sorrir mais um pouco e ter mais lembranças boas pra serem guardadas.

Mesmo se preparando, quando alguém se vai, dói. E não é pouco. Machuca. Dilacera. Corta. Devasta. Te tira o chão.

E perder alguém quando menos se espera, é como perder um aniversariante antes de cortar o bolo. A festa fica pela metade, a música inaudível, tudo começa a ficar meio cinza... e sem sentido.

Morreu atropelado. Bala perdida. Reagiu num assalto. Acidente. Infarto. Briga.

Que piada é essa da vida de nos tirar quem a gente ama, sem hora marcada? Sem notificação? Sem aviso prévio? Não tem graça. O sofrimento turvo não dá trégua à bonança.

A ficha não cai. Tem novidade, dá vontade de contar. Compartilhar. Pedir colo. A vida segue imperfeita. E não adianta culpar o Cara lá de cima, cobrar do Universo, choramingar pro tempo... a vida é sobre partir e ver partir.

Saudade é o sentimento que fica. Fica ausência com vontade de presença.

O que resta é se remendar em esparadrapos invisíveis, se entupir de frases feitas pra tentar enxergar o tabu da morte com outra percepção, continuar com a rotina e se esforçar pra não se auto sufocar com tantos planos não realizados.

Me consolo com a certeza de que pessoas que partem estão num lugar melhor. E vou me convencendo agarrada na esperança, que se dizem mesmo que a vida e a morte são passagens, que não exista mais adeus nem finais. Só saudade e um até breve.

Em breve começaremos mais uma história, com quem não pôde ficar até o nosso final.





Ana da Mata