sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Ele

Ele é cheio de manias irritantes, como uma criança que não sabe a hora de parar. Dono de um andar desmazelado, cabelo minuciosamente arrumado e um sorriso que desarma qualquer mecanismo de defesa meu. O olhar dele é o começo de todo sonho bom. Me transporta, me viaja, me eleva, me leva. Pra longe. Pra perto... Dele. 

O beijo é sutil, uma linha tênue entre amor e arte. Entre pressa e calma. Entre desejo e renúncia. Entre certeza e dúvida. Entre tanta coisa que me desperta urgência em tê-lo, ao mesmo tempo em que me desperta uma vontade de dizer que é melhor parar por aqui, já que eu tenho mesmo o hábito de afastar tudo o que me faz bem. Por medo da perfeição me invadir com cores alegres e desfazer todas as minhas crenças sobre a inexistência da maestria da felicidade a dois. Ou por burrice, porque quando as coisas vão indo bem, muito bem, a incerteza da reciprocidade abriga todas as minhas paranoias. 

O abraço dele conforta todas as minhas angústias. Seus braços se enlaçam com todo e qualquer afago meu. O toque dele me arrepia em lugares no corpo que eu nem sabia que era capaz de sentir. Ele tem tamanho o suficiente pra trocar lâmpada sem escada, ficar com os pés pra fora cama, o suficiente também pra me causar torcicolo entre uma troca de olhares ou um beijo mais longo, mas por dentro, tem tamanho de menino pequeno que sente medo de filmes de terror. 

O timbre da voz é grave. À flor dos lábios. Como se ele falasse em uníssono, e todos os outros sons ficassem mudos.  Sua paciência vai além da minha capacidade de entender tanta calmaria. Nem que eu meditasse três vezes por dia, alcançaria tal graça. O ritmo dele é oposto ao meu, acertando nosso compasso num ritmo não muito acelerado. Estamos de mãos dadas com o tempo.

Exagerado. Escandaloso. Falante. Dramático. Dono de bordões que provavelmente a mãe dele desconhece. Bufa em alto falante quando brinda um copo comigo, e eu largo a cerveja na mesa, em vez de tomar. Demonstra afetos, fala sobre seus planos, divide seus sonhos, sente assiduamente na medida do impossível. Seus sentimentos densos são escrachados pra quem quiser ver... e sentir. Não é sobre ser intenso, é sobre ser consistente. 

Ele me invadiu, sem cuidado algum. Assustada que só, recuei. Ele insistiu. Pisando descalça, na pontinha dos dedos, eu entrei na vida dele. Pedi licença e reparei, não há bagunça. Suas cicatrizes estão curadas. Do passado, ele não se lembra mais. O coração dele tá novinho em folha. Que sorte a minha.

Ele é cheio de manias viciantes, como um homem que sabe a hora certa de começar uma história. 


Ana da Mata

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Eu me perdi em você

Por dentro do teu olhar era tão fácil se perder.

E eu me perdi.

Eu me perdi quando transformei a curva do teu pescoço num abrigo. Num cantinho só meu. Como se eu pudesse decretar que você era o meu lugar favorito no mundo. Tinha um cheiro só seu, que tornou o meu. Era digno de ser visitado várias e várias vezes.

Eu me perdi quando entrei no teu coração. É um labirinto e eu não achei a saída. Talvez seu coração só cumpre com a função bombear sangue, sem precisar de muita cerimônia ou poesia. Oposto ao meu. Eu me perdi quando você me pedia calma e eu dava a alma. O amor realmente é muito frágil.

Eu me perdi na singularidade de toda a gentileza que me foi doada. Eu achava que era sorte. Mas era só você, sendo você. Sempre munido de boas intenções, palavras doces e um cavalheirismo que me fazia acreditar que você era um homem do século passado.

Eu me perdi nas carícias despudoradas, quando você passeou em mim, e me fez arrepiar em lugares que eu nem sabia que era capaz de sentir sensações que afloravam a pele. Cada toque seu era um convite pra desejos insaciáveis.

Eu me perdi no teu silêncio, que me grita todo dia. Vem carregado de "serás". Será que ele tá bem? Será que está com outra pessoa? Será que ele pensa em mim? Será que ele se importa? Será? Será?! A tua ausência me visita todo dia. E isso tudo, as dúvidas, o silêncio, a ausência, a junção de todas as coisas que me fazem lembrar você, não vão me fazer te procurar. Você nunca me pediu pra ficar.

Eu me perdi nas nossas entrelinhas, que deviam ter sido descobertas. Me precipitei com impulsos mesquinhos, não te dei sossego, quase te explodi. Só queria saber em qual demonstração de afeto meu, você iria perceber que eu era sua.

Eu me perdi nos seus passos desajeitados e na sua dança diferente. No seu sorriso despretensioso e na sua voz grave. No seu mistério e nos seus problemas. Na falta de compromisso, revertido em tesão. Na saudade disfarçada de carência. Perdi o tempo, tive pressa. Quis ser alquimista, te levar pra outra constelação.

Eu me perdi em você, porque você nunca foi meu. Se fosse, teria encontrado em você, o nós. E não há nada que reverta essa situação. Nem bússola, nem mapa, nem bola de cristal ou promessa pra São Longuinho.

E tá tudo bem. Tudo bem mesmo.

Me perder em você foi a minha melhor confusão. E o meu melhor encontro também.




Ana da Mata

sábado, 12 de agosto de 2017

Obrigada pai, por me amar quando eu menos mereci e quando mais precisei

Pai,

Eu não me lembro, mas a mãe me disse que quando pequena eu chorava cada vez que o você saía para trabalhar. Dormia no meio da cama, invadia o banheiro e tomava banho junto com você. Na infância pai não é pai, é super herói. É anjo da guarda, é protetor. Lembro de dizer que você era o homem da minha vida. E também lembro de você me dizer que eu só poderia namorar depois dos 25 anos, ou só quando eu achasse um príncipe, porque era o que eu merecia e não menos que isso. 

Bem, as coisas foram mudando conforme fui crescendo. Eu já não chorava quando te via partindo, porque eu estava ocupada demais brincando com as minhas bonecas e jogos maneiros que ganhava. Eu já não te via como o homem da minha vida, porque tinha meninos interessantes na escola e que me fazia suspirar feito boba. Também já não achava mais poético acreditar que você era meu herói, porque isso é coisa de filmes hollywoodianos. 

Por uma fase meio estranha, que eu nem me aguentava, por não saber de fato qual personalidade eu tinha, você me ajudava. Me aconselhava em cada dúvida que eu tinha. E mesmo com o seu super conselho de namorar depois dos 25, eu me entreguei para alguns sapos adoráveis disfarçados de príncipes. E na decepção, lá vinha você de novo, me vendo soluçar por quem não merecia minhas lágrimas e não vinha carregado de razão dizendo "eu te avisei", só de uma maneira leve dizia "você tem que gostar de quem gosta de você". 

Com o tempo a gente aprende a valorizar quem sempre e deixa de lado quem nunca. Família é sempre. Então, pai, me desculpe por todas as vezes que eu me distanciei, me auto convencendo de que mesmo te achando o melhor pai do mundo, os caras da escola mereciam mais a minha atenção. Me desculpe por todas as vezes que respondi suas broncas, questionando sua capacidade de entender algo sobre relacionamentos ou sobre a vida. Mal eu sabia que o mundo não é cor de rosa e tampouco fácil. Me desculpe por todas as vezes que eu saí de casa enfurecida por achar que, de fato, só existe a minha verdade, o meu umbigo. E me desculpe por cada afastamento meu, por mudar as prioridades da minha vida, colocando meus amigos num pedestal e colocando minha família em lembretes no calendário em datas comemorativas. 

Amadurecer não é fácil. E você já sabendo de tudo e das façanhas da vida, brigava tanto comigo, tentando me mostrar de um modo regrado que nem tudo são flores, e para assim talvez, me poupar de algumas enrascadas e até de alguns choros. Portanto, mesmo crescida, os sentimentos que aprendi quando criança são eternos. Hoje eu choro só de imaginar sua partida, encho a boca para falar que você é o homem da minha vida e que sim, existe heróis na vida real e eu tenho o meu. Só posso te agradecer pela educação simples que me deu e pelos conselhos ricos, quem eu sou hoje é só um reflexo seu.

Obrigada pai, por me amar quando eu menos mereci e quando mais precisei. 



Ana da Mata

terça-feira, 27 de junho de 2017

A vida é feita de fases. E todas passam.

Tudo começa com empurrõezinhos. Tem sempre alguém tomando decisões por você. E não poderia ser diferente, você ainda está aprendendo a engatinhar. Tudo é muito fácil. Se chorar ganha colo, se não chorar, ganha também. Você começa a descobrir o mundo. Procura coisas, gosta de umas, rejeita outras. Tem uma rotina resumida em programas infantis na TV, bochechas sendo apertadas por todos que o rodeiam. Brinca, aprende, erra, acerta, chora, faz birra. Fase concluída com sucesso.

Você já está grandinho o suficiente para dizer o que gosta e o que não gosta. Observa o mundo ao seu redor, descobre novos nomes, lugares e pessoas. Questiona quase tudo, ou tudo o que vê e não entende. E se entende, pergunta também. Observando, atentamente, tudo ao seu redor percebe que tem falso gamer tentando te levar pra trás. Finge ser seu amigo e puxa seu tapete. Anda contigo, fala mal de você. Sente inveja de suas conquistas. Tem sua primeira decepção. Aprende a filtrar mais teus amigos. Fase concluída com choro e sucesso.

Seu lado infantil já não está mais em você, agora teus objetivos são outros. De preferência outros com olhos claros e cabelos escuros. Se entrega para alguns adoráveis sapos. Até que surge na tua vida um sapo com ombro largos, cabelos dourados e olhos castanhos, com habilidades e efeitos positivos, aparentemente. É diferenciado. Mostra a magia, te transforma em princesa. Te preenche com seis espaços em seu medidor de saúde. O jogo tá fluindo. Opa, ele foi embora. Efeito magia zero. Diminuiu quatro espaços da sua saúde. Você sofre, quer fechar o jogo. Ei calma, tem sapo que fica. É mais difícil de ser encontrado, mas tem o poder de te mudar de direção, de te deixar gigante, com superpoderes e efeitos intermináveis. Recebeu moedas, se deu bem, seu medidor de saúde está preenchido com todos os corações, está mais forte. Próxima fase.

Já teve decepções de tirar o sono, corroer a alma, dilacerar o coração. Em contrapartida, colecionou bons amigos, conquistou sonhos, atingiu objetivos. Nem tudo está perdido. Saiu da escola. Tem um emprego. Ajuda os pais. Quer sair de casa. Quer tomar decisões sozinha. Quer seu próprio tempo. Privacidade. Liberdade. Quer um carro. Quer se formar em duas faculdades. Quer ganhar mais. Quer mudar de emprego. Quer dormir mais cedo e levantar mais tarde. Quer ser dona de si mesmo. Quer o mundo. Quer a vida. Quer correr o mais rápido que pode, invadir o castelo, beijar um príncipe, ter um final feliz.

Você já está meio cansada de tanta rotina, quer o novo. De novo. Quer fazer escolhas certas, sem precisar ler o horóscopo todo dia. Volta a ser criança, quer saber de tudo. De onde veio, por que veio, para onde vai, por que as pessoas são como são e por que as coisas não podem ser mais fáceis e menos complicadas. Briga com o Universo, não entende nada, ninguém tem as respostas para as suas perguntas. Crise existencial. Para piorar, tem crise econômica, teu emprego tá em risco. Teu parceiro foi embora. Mais um. O que há de errado? Quer apertar stop, mas o tempo não pára. Procura terapias, faz meditação, treina três vezes na semana, entrou no Yoga. Está mais calma. Começa a entender que não existe verdade absoluta, que tudo tem um fim. Enxerga seus problemas com outros olhos, vê o mundo com outra percepção. Alcança a maturidade, absorve empatia, engole dores alheias sem engasgar. Fase concluída.

Você tem um parceiro, ele te ajuda a pular pontes difíceis. Te dá moedinhas de ouro, você ganha duas vidas. O jogo tá fluindo. E está tão bom, que você nem quer que tenha um final; Esquece a parte de vencer o Super Dragão, alcançar o topo castelo. Esquece. Tem um emprego bacana, faz viagens que te trazem lembranças bonitas. Percebe que a
gente falha miseravelmente em cada tentativa de adivinhar a próxima fase. E lá vem o destino com um menu secreto, dando opções bonitas de futuros. A gente escolhe o mais fácil. Cadê o código secreto estampado na nossa cara, nessas horas? Não tem nem capa de invisibilidade que nos faça sumir, até tudo ficar como queremos. Se não controla sua vida, a vida controla você.

O que existe de mais valioso no mundo, é o tempo. Use.
O infinito é o nosso mantra mais bonito. Enfeite.
Somos responsáveis por tudo que ecoa na eternidade. Preencha.
O que existe de mais valioso em nossas vidas está guardado em nós. No coração.

O segredo é nunca parar. Continue. Arrisque. Acredite. Se é seu, passará no teu caminho. Paciência. Nem tudo o que você quer, é o que precisa. Vá, sem medo. Mude, sem olhar para trás. Se a vida é um jogo, o controle é você. Não dê stop, não volte fases, vença obstáculos. No fim do jogo, terá valido a pena. E o esforço.

Momentos ruins, tornam-se aprendizados. Momentos bons, tornam-se lembranças. A vida é feita de fases. E todas passam. Aproveite-as!






Ana da Mata


terça-feira, 18 de abril de 2017

Todo carnaval tem seu fim

Eu fui tua desde o primeiro olhar. Desde o momento em que passei por você, no meio da multidão, enquanto nossos corpos fervilhavam um pelo outro. Desde quando pegou em minhas mãos, me olhando com total devoção, implorando em sussurros que eu ficasse. Que eu continuasse ali, porque eu seria sua. Toda sua. Você me beija, lentamente, como se o tempo não passasse. E, de fato, não passou. Eu não senti. Teu beijo me convenceu. Eu fiquei. Fui tua. Você é tão perfeito, ao mesmo tempo, que é cheio de defeitos. E eu voltei pra casa amando cada parte sua. Amei tanto, tanto... como se a definição de perfeição pudesse ser substituída com esse seu nome estranho.

A maneira como você me olhava, me obrigava a inventar cada vez mais sobre você. Ver mais, sentir mais, falar mais. Você não me deixou apodrecer no canto do quarto com as todas minhas esquisitices, respeitou meus limites, me ensinou a querer mais. Sorrindo de canto, desarmou cada empecilho que eu pudesse usar contra você. Tarde demais. Você vicia. O modo como me pegou de costas, suavemente, me prendendo em você. Vicia. A forma como se aproximou, tentando minuciosamente não me assustar com um turbilhão de sentimentos aflorados. Vicia. O jeito leve que tocou meu corpo, afetuosamente, como se já fôssemos amantes um do outro. Vicia. A serenidade ao me beijar, me forçando a crer que o amor existe em pleno Carnaval. Vicia.

Eu romantizei cada toque teu.

Enquanto eu te observava, me perguntava que raios que eu estava fazendo numa cama que eu nunca mais deitaria. Que merda que eu estava fazendo, sonhando acordada em ser inteira de um cara que eu nunca mais veria. Eu precisei disfarçar a menina apaixonada que eu era, e tentei ser uma mulher madura, ao extremo. Talvez tenha sido confuso pra você, imagino. É que você tem todo o potencial de acabar com minha vida... e com o meu coração.

Poderia ser menos embaraçoso se você não tivesse transformado uma noite de Carnaval, numa lembrança bonita. Se não tivesse um Golden que cheira shampoo importado e que deita no chão pedindo carinho. Se não tivesse reunido cada miudeza minha, juntado as quinquilharias e feito da nossa noite suja num poema sobre saudade. Se não tivesse poluído minhas percepções sobre o amor, com carícias despudoradas. Se não tivesse fingido tão bem em saber mais sobre mim, ouvindo atentamente cada palavra sobre a minha vida com um ar dramático. Se não tivesse uma inteligência além do normal, e não só braços fortes com tatuagem a mostra. Se não tivesse cantado no pé do meu ouvido "We found love in a hopeless place", e em seguida, me beijado com esses seus lábios macios, quase uma ofensa pro resto do mundo. 

Por fim, todo carnaval tem seu fim. Você foi só mais um cara. Mas, diferente de todos os outros caras, você não enjoa. A sua falam mansa, não enjoa. Sua risada prazerosa, não enjoa. Seu cabelo emaranhado em tons castanhos, não enjoa. Até o cheiro do seu cigarro que impregnou o quarto, não enjoa. Você é uma junção de todas as coisas boas que pode existir num homem, e exatamente por isso, não pode ser meu. Talvez eu veja coisas bonitas demais em quem não vê quase nada em mim. Enfim.

Você foi só mais um cara e tudo o que eu quis... naquela noite de Carnaval.



Ana da Mata

Eu sou completa sem você

Quando eu te deixei, imaginei que a continuação da minha vida seria bem triste. Era necessário te deixar, mesmo? Não, não podia ser verdade. Éramos um encaixe perfeito de tudo que era verdade. A nossa verdade pro resto do mundo. Uma sincronia singular. E sem você, dali pra frente, tudo seria incompleto, diferente e talvez eu inventaria uma invenção do que é ser feliz sozinha, só pra convencer a mim e aos outros de que tá tudo bem. De qualquer forma, era sim, necessário te deixar. 


Eu te deixei pelas mentiras bonitas, pelo vício em sempre contar o que eu queria ouvir. Pela ausência em demonstrar afetos e pelo excesso em desinteresse em nem tentar demonstrar também. Eu te deixei por não aguentar a roda gigante de uma relação que se estendia ano após ano, girando em torno de costume e não de sentimento. Enxergávamos a olho nu o que estava errado, e ainda assim, escancarado em nossas fuças, não procurávamos consertar o que ainda poderia estar em tempo. 

Tarde demais. Já estávamos acostumados. No piloto automático. E eu tive que ir embora. 


Quando eu te deixei, senti medo. Muito medo. Foi como ser uma criança perdida, sem um guia, uma voz, alguém que me alertasse sobre os perigos que eu podia correr sem você por perto. Eu queria pagar pra ver o nosso final feliz. Tentei, insistentemente, negar o que a minha mente dizia sobre nós, todo dia. E eu concordava com o meu coração, toda vez que ele me dizia que tínhamos tudo pra dar certo. "Só um pouco mais de tempo e paciência que tudo volta a ser como antes". Bem antes de todo esse comodismo e um amor inventado. 


Peço desculpas ao meu coração, vou dar voz a razão. Foi sim, necessário te deixar.


Eu te deixei por me sentir uma fracassada, em cada tentativa frustrada de te convencer que juntos éramos melhores, mais fortes e mais um infinito de coisas bonitas. Por esquecer de mim, toda vez que eu cuidava de nós. Por achar que meu sorriso, era o seu sorriso favorito no mundo. E não era. Nunca foi. Eu te deixei por não aguentar o peso da culpa por ter adiado o nosso fim, prolongado as reticências, adicionado centenas de vírgulas. Poderia ter sido mais simples e fácil, era só colocar um. Ponto final. 


Amor torto que rodopia a mente, balanga o corpo, enfraquece a alma e sufoca o coração. 

Eu fui embora. Chorei um choro inaudível, solucei baixinho em murmúrios disfarçados de bocejos. Eu sofri e passei por tudo o que eu precisava passar. Me desmontei inteira. Senti sua falta, senti vontade de correr e te abraçar, senti um desejo inexplicável de você. Era estranho terminar o dia sem você me perguntando se eu estava bem. E mais ainda, começar o dia sem você abrindo a janela me forçando a sair da cama. Não tinha mais café na mesa, não tinha mais latidos dos meus cachorros, não tinha guardanapos sujos espalhados. O seu lado do sofá estava vazio. 

Por um instante, eu olhei pra mim mesma e com tanta sinceridade, que era incapaz de eu me enganar. Eu estou bem. Eu não preciso mais me corroer com dúvidas irracionais. Eu não me torturo por insistir em mil possibilidades surreais. O que um dia eu senti tanta falta, se esvai cada vez que penso que poderia ter sido de outro jeito. Que eu poderia ter outro final. O medo passou. A tristeza também. Sou recheada até a borda do que me faz bem. Do que me faz leve. Do que me faz completa. E eu que pensava que era necessário seguir o roteiro do casal feliz para seguir a vida sem desviar do caminho em linha reta, que ironia. A vida é realmente sobre chegar onde se quer em linhas torta. Sobre partir e ver partir. Sobre cair e levantar. Sobre apanhar severamente, sentir dores inflamáveis e aprender o que não nos ensina na escola. Sobre cair em armadilhas propositais do destino. Sobre escolher o errado, fazendo o certo. E vice e versa. 

Pare, pare de me procurar e tentar dizer o que não dá mais tempo. Nada foi sua culpa e nem minha. Amor sempre vira desamor. Vivenciado ou não. Compreendido ou não. O fim tem sua hora. Chegou a nossa. Então, por favor. Pare de me procurar arrependido. Você só está perdido, eu também estava e me encontrei. Encontrei lugares novos, pessoas novas, abraços longos e apertados, risadas estranhas que viciam, cervejas amargas que me deixam mais tonta do que já sou. Encontrei olhares iluminados. Motivos. Continuações doces. O novo. O recomeço. 

Não vai demorar muito, e logo terá um ombro pra encostar, uma mão pra segurar, um olhar pra se encantar, um sorriso pra alegrar seu dia, uma janela pra abrir, uma primavera pra te florescer... Em breve, você não terá que se esforçar pra não pensar em mim, naturalmente, não pensará mais. E vai sorrir de canto, e se convencer de que eu estava certa o tempo todo:  amores foram feitos para acabar e guardar... no coração. 

Nosso final feliz depende sempre da gente. Nunca do outro. Portanto, te deixo aqui. Nesta linha. Finalizo dizendo que você foi metade do que nunca me completou. E que a parte que faltava para ser completa estava comigo o tempo inteiro.







Ana da Mata

sexta-feira, 10 de março de 2017

Vontade de você

Minha vontade é de te conhecer melhor e descobrir que temos muito mais coisas em comum, do que pensamos. E provar que a distância não combina com a gente. Que seu signo é o meu paraíso astral, e se não for, tá tudo bem, a gente atrai a sorte a nosso favor. Que suas manias mais bizarras são, na verdade, as mais engraçadas. Que esse seu jeito ogro de ser, é só uma auto camuflagem. Você transparece bondade.

Minha vontade é de aquietar meu coração, toda vez que eu escuto seu nome. De te dizer que eu sinto muito, não vi você chegar. Mas que estou vendo, lentamente, você ficar. De transformar você num poema e criar rimas pra nós dois. De te aninhar em todos os meus dengos. De te convencer que você é a minha parte mais bonita. De decifrar suas entrelinhas e desvendar seus mistérios. 

Minha vontade é de perder o bom senso e desrespeitar seus limites. De guardar meu juízo em casa, te levar pro bar e te beber em goles desesperados. De influenciar seus sentidos, invadir seus sonhos e fazer morada em seus pensamentos. De sentir o seu toque e descobrir que é o meu toque favorito. De beijar você e fazer do seu beijo, o meu vício. De te pedir que ocupe o espaço que você quiser, em mim. Fique à vontade, o corpo é seu. O coração também. 

Minha vontade é de te sequestrar do seu compromisso mais urgente e deixar que a noite nos enlace. De esconder o relógio e esquecer o tempo. De me apaixonar por você, cada vez que sorrir de canto. Ou cada vez que sorrir. De qualquer jeito e forma. De caminhar em você e decorar seus atalhos. De te sentir e me arrepiar. De te provar e querer sempre mais. De te abraçar e me deixar em você. De encostar no teu rosto e me enroscar na tua barba. De deitar no teu ombro e me grudar na curva do teu pescoço. 

Minha vontade é de enfeitar o calendário numa data nossa. Só nossa. De me derreter cada vez que eu ouvir sua voz. De me desmanchar com seus elogios bobos. De ter conversas raras e infantis, mas que nos trouxessem piadas. E que essas piadas nos trouxessem motivos pra rir sempre que a timidez ganhasse da gente. De ouvir a mesma música, centenas de vezes, só porque você me mostrou. De recomeçar seus finais e trilhar nosso caminho com lembranças coloridas. 

Minha vontade é de te mostrar a leveza num sentimento tão grande. De olhar nos seus olhos e dizer que meu coração te escolheu. De dizer que minha pele implora pela sua. De dividir meu travesseiro com você. De me encaixar no teu jeito e pedir que fique. De me ajeitar em suas confusões. De transformar cada passo nosso, numa dança. E cada vez que alguém errar, que a gente crie outra coreografia. Porque é isso que o amor faz. 

Minha vontade é que você anestesie as minhas dores. Que tranquilize os meus medos. Que não se assuste toda vez que me ver fraquejar. Que teus gestos doces antecipem todas as minhas manhas. Que tua lábia adie todas as minhas paranoias. Que ache graça nas minhas esquisitices. Que não desista de mim nos meus piores dias. Que aguente minha TPM com ouvidos a postos e chocolate em mãos. Que você me queira e sinta vontade de mim, como eu sinto vontade você. 

Minha vontade é testemunhar o fim de tanta vontade. 




Ana da Mata

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

E se eu te disser ...

Se eu te disser que cada vez que eu me pego pensando em você, eu sinto uma vontade absurda de correr até a sua casa e dividir meus desejos mais secretos. Que meu corpo anseia o seu. Que minha alma sente urgência em ter a sua. Que quando você me toca, meu coração preguiçoso é preenchido por sensações taquicardias. E se eu te disser que eu sinto pressa em chegar perto, me moldar em você, transformar seu olhar num poema. Você leria? 

Se eu te disser que eu enterrei bem fundo o medo de amar, acompanhada de um sentimento desajuizado. Que se a gente não der certo, ninguém precisa ir embora. Que você faz escolhas que ninguém entende e nem eu, mas tudo bem, eu aninho todas as suas esquisitices em cafunés desajeitados. Que se for necessário dizer uma, duas, cinco vezes o quanto você é lindo, eu diria. E se eu te disser que se precisar implorar por um abraço seu, eu imploraria. Porque dentro dos seus braços, meus medos se dissolvem. Você ficaria? 

Se eu te disser que vez ou outra, eu congelo o tempo e observo seus olhos verdes que sorriem ao mundo, amolecendo corações blindados, sem precisar de esforço. Que se não nos tornarmos tudo um para o outro, que não sejamos nada. Que eu enjoo fácil de caras pateticamente apaixonados, tornando minha rotina em um melodrama, mas eu me apaixonaria por você todo dia. Talvez só de te olhar. E se eu te disser que se fossemos romanticamente blasé, eu tiraria da minha caixa todo o amor que eu guardei e te entregaria. Você cuidaria?

Se eu te disser que eu estou sempre querendo ir embora, com vontade ficar. Que eu exagero em palavras, mas economizo em atitudes. Que eu construiria um castelo de areia para nós e, em seguida, o desmancharia inteiro, só para sempre termos continuações. Que eu te ligaria em horários desrepitosos, desligaria na tua cara, só pra ouvir sua voz de sono sussurrar "alô".  E se eu te disser que eu te quero sem demora, ao mesmo tempo que surge um desespero em sumir, ficar calada, sozinha, na minha. E voltar só depois que eu pudesse explicar todas as minhas (próprias) dúvidas. Você entenderia o paradoxo do amor?


Se eu te disser que, honestamente, os afetos criados merecem beijos longos. Que eu ensaio gestos ousados pra você me chamar de sua. Que eu bebo goles cheios de coragem e quando eu te vejo, vomito tudo. Que eu valorizo seus detalhes, a simplicidade nunca foi tão rara. Que, frequentemente, eu me assusto, pensando que tudo sentido ao extremo, traz dores extremas também. E se eu te disser que eu carrego em mim, um arsenal de clichês pra te conquistar. Você se encantaria? 

Se eu te disser que eu coleciono sentimentos desorientados. Que eu quero ser livre com você. Que eu sofro de ansiedade quando o assunto é amor. Que dói a possibilidade do adeus, mas dóis mais o seu silêncio. Que a saudade se engasga, toda vez que tenta gritar seu nome. Que eu voltaria dez casas, pegaria cogumelos mágicos e anéis dourados e acharia o caminho certo. O teu caminho. Que eu enfrentaria todas as criaturas, passaria fases, só pra gente ter o nosso final feliz no topo do castelo. E se eu te disser que o infinito é o nosso mantra mais bonito. Você acreditaria? 

E se eu te disser que te amo. Seria recíproco?  






Ana da Mata



domingo, 29 de janeiro de 2017

um toque seu

Só bastou sentir o seu toque pra eu me perder no som da tua voz, balbuciar palavras desconexas, tentando lentamente voltar ao mundo real, onde eu estou com as bochechas coradas, imaginando onde podemos parar se esse seu toque continuar. Um toque seu pra eu me embaralhar em suas pequenas saliências, que se atreveram em sorrir pra mim do jeito mais doce, mais assanhado e se não fosse minha lucidez, teria te despido inteirinho em um canto qualquer. 

Um toque, moço. Foi o suficiente pra eu me pegar sorrindo de canto, enquanto meu cabelo bagunçado escondia metade do meu rosto e minhas covinhas que não resistem aos seus olhos castanhos. Um toque e eu me desconcertei, pirei e me peguei sonhando ali, acordada, em você me pegando de jeito e me fazendo inteira.

Um toque seu pra minha pele arrepiar e meu corpo implorar por você, em imensidões que não caberiam numa noite só. Um toque e eu já quero terminar a cerveja, fugir do bar, mordiscar tua orelha, rasgar tua camisa, arrancar sua bermuda e desafiar meus próprios limites. Um toque seu, e eu alimento a paixão com carinhos mais ousados, transcendendo pro teu olhar o que pulsa dentro de mim.  

Apenas um toque seu e eu cantarolei todo o meu poema em ode sua, fugi do meu bom senso e vacilei com um desejo insaciável, sem saber que direção tomar. Um toque seu, amor, e eu já sinto tua pele rasgando a minha. E te olho, te encaro, te observo... esperando que você seja malandro, pra segurar a minha mão e me pedir pra sairmos dali. E me pedir pra ficar. Pra continuar. Pra não ir.

Só precisou de um toque seu, pra eu querer tirar a roupa e me enlaçar no teu corpo. Encostar tua boca na minha, emoldurar nosso beijo e fazer dele nosso quadro. Um toque, meu bem, e eu fiz planos líricos pra nós dois. Romantizei o sentir, porque quando o sentir é grande, vale a pena o esforço em fazê-lo ficar. Enquanto é leve, intenso e nosso. Enquanto é recíproco.  

Um toque seu e eu fico presa em suas nuances. Te provoco com palavras cafajestes, com gemidos no pé do teu ouvido, com carícias na tua barba. Um toque seu, foi o bastante pra eu ficar na tua e ansiar em mostrar que minha calcinha vermelha combina com os teus lábios carnudos. 

Moço, só precisou de um toque seu, pra eu vulgarizar um sentimento tão bonito e transformá-los em sonhos ardentes. Um toque seu e eu te mostrei minha fraqueza. Um toque seu eternizado na fração do segundo. Um toque seu e meus joelhos enfraqueceram, me convencendo de que o toque de quem a gente realmente gosta, vai além da capacidade racional de explicar o porquê de tanta coisa. De tanto sentimento. De tanto desejo. E de tudo que me transborda, vicia e me acalma. 

Um toque seu, meu bem, e meu coração te pediu. 








Ana da Mata

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Coração distraído

Eu não posso culpar sentimentos que me invadem na ponta do pé, que chegam de mansinho, não pedem licença, não reparam a bagunça e logo procuram um canto pra descansar (em mim), quando tudo ao meu redor parece desabar por eu não saber lidar com conflitos emocionais. 

Malditos conflitos que me fazem questionar o porquê de eu ter nascido com cinco parafusos a menos, tornando tudo mais complicado e difícil. Embaraçando todo gesto bonito que me é dado, me perdendo nas enrascadas que eu mesmo crio. Me convencendo que essa minha neurose existencial é impotente, desconexa e limitada.  


Meu coração se perde e me confunde. É desastrado, me derruba, me corta.  Não lê manuais, não entende bulas, não segue receitas. Não satisfeito em cumprir sua tarefa em bater, me pira. É desajeitado, tropeça em ombros largos, sorrisos bobos, palavras gentis e camas confortáveis. 
É ansioso. Diz logo "eu te amo", não espera a saudade chegar, o carinho transbordar. Atravessa. Atropela. Perde o fôlego. 


Eu tenho medo de descobrir a delicadeza do sentimento e me perder na infinitude do afeto. De me tornar a realidade do sonho de alguém, de ser irracional a ponto de perder o leve, o brando, o pleno. Eu tenho receio em que todas as coisas boas virem resto. O apego. A entrega. O prazer. A admiração. 

Meu coração é fácil, topa tudo. Apenas pelo prazer da companhia, pelo exagero em impossibilidades absurdas, pelo vício da dúvida, pela tortura em enviar mensagens impulsivamente planejadas, pelas hipóteses banais, pela urgência do eterno
, pelo costume do plural e pelo medo do singular. 


Eu me escondo por não aceitar sofrer o que eu já não aguento mais, e ainda assim, insisto em continuar dissecando a fragilidade em afeições meramente artificiais. O erro pode ser meu, pode ser do outro, o ressentimento pode ser recíproco. Talvez não exista explicações, respostas nem ponto finais, ao que eu não entendo ou finjo não saber. 


Ainda que sem solução, sem certezas, sem continuações, eu respeito toda essa minha esquisitice em abrigar expectativas cheia de promessas. Mas a culpa não é de ninguém... 


Meu coração é distraído, não vê onde pisa. 






Ana da Mata