domingo, 29 de janeiro de 2017

um toque seu

Só bastou sentir o seu toque pra eu me perder no som da tua voz, balbuciar palavras desconexas, tentando lentamente voltar ao mundo real, onde eu estou com as bochechas coradas, imaginando onde podemos parar se esse seu toque continuar. Um toque seu pra eu me embaralhar em suas pequenas saliências, que se atreveram em sorrir pra mim do jeito mais doce, mais assanhado e se não fosse minha lucidez, teria te despido inteirinho em um canto qualquer. 

Um toque, moço. Foi o suficiente pra eu me pegar sorrindo de canto, enquanto meu cabelo bagunçado escondia metade do meu rosto e minhas covinhas que não resistem aos seus olhos castanhos. Um toque e eu me desconcertei, pirei e me peguei sonhando ali, acordada, em você me pegando de jeito e me fazendo inteira.

Um toque seu pra minha pele arrepiar e meu corpo implorar por você, em imensidões que não caberiam numa noite só. Um toque e eu já quero terminar a cerveja, fugir do bar, mordiscar tua orelha, rasgar tua camisa, arrancar sua bermuda e desafiar meus próprios limites. Um toque seu, e eu alimento a paixão com carinhos mais ousados, transcendendo pro teu olhar o que pulsa dentro de mim.  

Apenas um toque seu e eu cantarolei todo o meu poema em ode sua, fugi do meu bom senso e vacilei com um desejo insaciável, sem saber que direção tomar. Um toque seu, amor, e eu já sinto tua pele rasgando a minha. E te olho, te encaro, te observo... esperando que você seja malandro, pra segurar a minha mão e me pedir pra sairmos dali. E me pedir pra ficar. Pra continuar. Pra não ir.

Só precisou de um toque seu, pra eu querer tirar a roupa e me enlaçar no teu corpo. Encostar tua boca na minha, emoldurar nosso beijo e fazer dele nosso quadro. Um toque, meu bem, e eu fiz planos líricos pra nós dois. Romantizei o sentir, porque quando o sentir é grande, vale a pena o esforço em fazê-lo ficar. Enquanto é leve, intenso e nosso. Enquanto é recíproco.  

Um toque seu e eu fico presa em suas nuances. Te provoco com palavras cafajestes, com gemidos no pé do teu ouvido, com carícias na tua barba. Um toque seu, foi o bastante pra eu ficar na tua e ansiar em mostrar que minha calcinha vermelha combina com os teus lábios carnudos. 

Moço, só precisou de um toque seu, pra eu vulgarizar um sentimento tão bonito e transformá-los em sonhos ardentes. Um toque seu e eu te mostrei minha fraqueza. Um toque seu eternizado na fração do segundo. Um toque seu e meus joelhos enfraqueceram, me convencendo de que o toque de quem a gente realmente gosta, vai além da capacidade racional de explicar o porquê de tanta coisa. De tanto sentimento. De tanto desejo. E de tudo que me transborda, vicia e me acalma. 

Um toque seu, meu bem, e meu coração te pediu. 








Ana da Mata

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Coração distraído

Eu não posso culpar sentimentos que me invadem na ponta do pé, que chegam de mansinho, não pedem licença, não reparam a bagunça e logo procuram um canto pra descansar (em mim), quando tudo ao meu redor parece desabar por eu não saber lidar com conflitos emocionais. 

Malditos conflitos que me fazem questionar o porquê de eu ter nascido com cinco parafusos a menos, tornando tudo mais complicado e difícil. Embaraçando todo gesto bonito que me é dado, me perdendo nas enrascadas que eu mesmo crio. Me convencendo que essa minha neurose existencial é impotente, desconexa e limitada.  


Meu coração se perde e me confunde. É desastrado, me derruba, me corta.  Não lê manuais, não entende bulas, não segue receitas. Não satisfeito em cumprir sua tarefa em bater, me pira. É desajeitado, tropeça em ombros largos, sorrisos bobos, palavras gentis e camas confortáveis. 
É ansioso. Diz logo "eu te amo", não espera a saudade chegar, o carinho transbordar. Atravessa. Atropela. Perde o fôlego. 


Eu tenho medo de descobrir a delicadeza do sentimento e me perder na infinitude do afeto. De me tornar a realidade do sonho de alguém, de ser irracional a ponto de perder o leve, o brando, o pleno. Eu tenho receio em que todas as coisas boas virem resto. O apego. A entrega. O prazer. A admiração. 

Meu coração é fácil, topa tudo. Apenas pelo prazer da companhia, pelo exagero em impossibilidades absurdas, pelo vício da dúvida, pela tortura em enviar mensagens impulsivamente planejadas, pelas hipóteses banais, pela urgência do eterno
, pelo costume do plural e pelo medo do singular. 


Eu me escondo por não aceitar sofrer o que eu já não aguento mais, e ainda assim, insisto em continuar dissecando a fragilidade em afeições meramente artificiais. O erro pode ser meu, pode ser do outro, o ressentimento pode ser recíproco. Talvez não exista explicações, respostas nem ponto finais, ao que eu não entendo ou finjo não saber. 


Ainda que sem solução, sem certezas, sem continuações, eu respeito toda essa minha esquisitice em abrigar expectativas cheia de promessas. Mas a culpa não é de ninguém... 


Meu coração é distraído, não vê onde pisa. 






Ana da Mata