terça-feira, 18 de abril de 2017

Todo carnaval tem seu fim

Eu fui tua desde o primeiro olhar. Desde o momento em que passei por você, no meio da multidão, enquanto nossos corpos fervilhavam um pelo outro. Desde quando pegou em minhas mãos, me olhando com total devoção, implorando em sussurros que eu ficasse. Que eu continuasse ali, porque eu seria sua. Toda sua. Você me beija, lentamente, como se o tempo não passasse. E, de fato, não passou. Eu não senti. Teu beijo me convenceu. Eu fiquei. Fui tua. Você é tão perfeito, ao mesmo tempo, que é cheio de defeitos. E eu voltei pra casa amando cada parte sua. Amei tanto, tanto... como se a definição de perfeição pudesse ser substituída com esse seu nome estranho.

A maneira como você me olhava, me obrigava a inventar cada vez mais sobre você. Ver mais, sentir mais, falar mais. Você não me deixou apodrecer no canto do quarto com as todas minhas esquisitices, respeitou meus limites, me ensinou a querer mais. Sorrindo de canto, desarmou cada empecilho que eu pudesse usar contra você. Tarde demais. Você vicia. O modo como me pegou de costas, suavemente, me prendendo em você. Vicia. A forma como se aproximou, tentando minuciosamente não me assustar com um turbilhão de sentimentos aflorados. Vicia. O jeito leve que tocou meu corpo, afetuosamente, como se já fôssemos amantes um do outro. Vicia. A serenidade ao me beijar, me forçando a crer que o amor existe em pleno Carnaval. Vicia.

Eu romantizei cada toque teu.

Enquanto eu te observava, me perguntava que raios que eu estava fazendo numa cama que eu nunca mais deitaria. Que merda que eu estava fazendo, sonhando acordada em ser inteira de um cara que eu nunca mais veria. Eu precisei disfarçar a menina apaixonada que eu era, e tentei ser uma mulher madura, ao extremo. Talvez tenha sido confuso pra você, imagino. É que você tem todo o potencial de acabar com minha vida... e com o meu coração.

Poderia ser menos embaraçoso se você não tivesse transformado uma noite de Carnaval, numa lembrança bonita. Se não tivesse um Golden que cheira shampoo importado e que deita no chão pedindo carinho. Se não tivesse reunido cada miudeza minha, juntado as quinquilharias e feito da nossa noite suja num poema sobre saudade. Se não tivesse poluído minhas percepções sobre o amor, com carícias despudoradas. Se não tivesse fingido tão bem em saber mais sobre mim, ouvindo atentamente cada palavra sobre a minha vida com um ar dramático. Se não tivesse uma inteligência além do normal, e não só braços fortes com tatuagem a mostra. Se não tivesse cantado no pé do meu ouvido "We found love in a hopeless place", e em seguida, me beijado com esses seus lábios macios, quase uma ofensa pro resto do mundo. 

Por fim, todo carnaval tem seu fim. Você foi só mais um cara. Mas, diferente de todos os outros caras, você não enjoa. A sua falam mansa, não enjoa. Sua risada prazerosa, não enjoa. Seu cabelo emaranhado em tons castanhos, não enjoa. Até o cheiro do seu cigarro que impregnou o quarto, não enjoa. Você é uma junção de todas as coisas boas que pode existir num homem, e exatamente por isso, não pode ser meu. Talvez eu veja coisas bonitas demais em quem não vê quase nada em mim. Enfim.

Você foi só mais um cara e tudo o que eu quis... naquela noite de Carnaval.



Ana da Mata

Postar um comentário